terça-feira, 14 de dezembro de 2010

PR, VETOS E AUTONOMIAS

11/01/09

Carlos César, do PS,
Presidente do Governo Regional dos Açores
A recente perturbação – não chegou a ser uma crise – entre o PR, Governo e Região Autónoma dos Açores, por causa do novo estatuto autonómico, só aparentemente terminou. Vai deixar marcas e depende do bom senso politico não provocar dissabores senão mesmo fortes crises, no futuro.
A questão resume-se em poucas linhas: aproveitando-se da maioria absoluta que o PS detém na AR e da já crónica “distração” parlamentar em plena época balnear, o governo regional dos Açores apresentou um novo progecto de estatuto que mexe em assuntos constitucionais – torcendo-os – sem que, previamente, tivesse havido qualquer alteração na lei fundamental que tal permitisse. Deste modo foram atingidos alguns dos poderes do PR. Isto configura um pequeno golpe de estado constitucional.
Pela informação disponível parece que todos os intervenientes se portaram mal no processo.
Andou mal o governo regional dos Açores, com o seu presidente à cabeça, pela iniciativa que não é necessária a nenhum titulo nem aparenta ter sido feita de boa fé; não contentes com isso, mesmo depois da lei promulgada, ainda continuam a querer alimentar a polémica.
Não andaram bem os Partidos pois não “mastigaram” convenientemente o diploma durante a fase de discussão; não andaram bem ainda, pela baixa politica evidenciada e pela baixeza e cobardia que representa a genuflexão pela tirania dos votos e da pseudo satisfação das clientelas partidárias.
Não andou bem o PR pois inexplicavelmente não enviou, em devido tempo, o documento para o Tribunal Constitucional; depois porque, após tomar atitudes públicas firmes e claras – uma raridade na classe politica – invocando Princípios, acabou por fazer uma retirada de sendeiro.
Não estiveram, finalmente, alguns comentadores e orgãos de informação, por tentarem menorizar os eventos. A questão, apesar de não ser reconhecivel facilmente pela maioria dos portugueses como importante tem, de facto, importância elevada.
O prof. Cavaco Silva ocupando o cargo mais proeminente na magistratura da Nação e, por inerência, comandante supremo das FAs, não pode mostrar falta de coragem ou tergevisação nos procedimentos. Se o fizer a sua autoridade sairá ferida daí para a frente. Quem confiará na sua intervenção numa crise futura? Não se deve, por outro lado invocar Princípios e, na sua quebra, não retirar as consequências inerentes.
Ora o que aconteceu, não querendo o PR resignar, só poderia terminar na dissolução da AR. Dirão alguns, que tal seria causa de grande perturbação politica e social e que isso favoreceria o partido no governo que assim podia descartar-se das responsabiliades na crise económico/financeira/social – diria sobretudo moral – em que o país está mergulhado e assim capitalizar em eleições antecipadas. Esse desiderato explicaria, até, a insistência absurda do PM em não querer mudar uma vírgula ao diploma. Pode ser, mas a agitação irá bater à porta mais cedo ou mais tarde. Aliás, o País anda em roda livre há vários anos seja qual for o governo que lá esteja a cobrar impostos.
Não pensem que somos irresponsáveis: o que resta de Portugal tem-se aguentado porque Bruxelas tem enviado para cá somas avultadas de dinheiro e não tem havido rupturas de stocks de alimentos e energia (que cada vez importamos mais...) não foi porque algum governo tenha conseguido por o país a funcionar e a produzir de uma forma competente e honesta – a avaliar pelos casos de corrupção e nepotismo que são públicos e notórios. Os índices económicos, financeiros e sociais não páram de deslizar para o vermelho e a maioria da população está longe de se aperceber da gravidade da situação. Tudo isto irá ter consequências politicas e não se deverá ficar por aí.
Os partidos políticos estão a ficar, também, reféns de votos regionais o que representa mais uma acha para a fogueira da ingovernabilidade. Atente-se o que se tem passado em Espanha.
Voltamos à questão do estatuto autonómico para dizer que tudo isto é um erro. Começa por ser um erro toda a parafernália de estruturas politicas que se inventou para os Arquipélagos dos Açores e Madeira pois são perfeitamente dispensáveis já que não acrescentam nada à governabilidade destes 90000km2 de terra habitada (ainda) soberanamente por uns tipos que se dizem portugueses.
Nem representam alguma mais valia em termos sociais, económicos ou qualquer outro âmbito que se queira considerar. Representa, isso sim, uma despesa descomunal, um desperdício de tempo e energias,  um foco permanente de tensões e problemas e uma passerelle de vaidades.
Não há, em rigor, qualquer razão para “autonomias” do mesmo modo que não as há para o Minho ou para a Estremadura, pois nenhuma questão étnica, religiosa, cultural, linguística ou seja de que espécie for, justifica semelhante diferenciação. O facto de serem ilhas e haver muito mar de permeio nada justifica. Também era dificil chegar a Tràs-os-Montes e o mar, no nosso caso, serviu sempre para unir e não separar. Hoje em dia com os meios de comunicação e transporte existentes as distâncias estão ao alcance de todos.
Nada mais seria necessário, portanto, às portuguesíssimas ilhas atlânticas do que freguesias, câmaras e governo civil. E bom seria que os portugueses de todas as terras circulassem por todas elas!
Existe, porém, uma razão ponderosa para que se tivessem criado governo e parlamento regionais e espalhados por várias ilhas – até partidos regionais – e ministro da república: é que por alturas de 1974/75, o desatino que tomou a revolução dos cravos, que nos pôs à beira da guerra civil, com a ameaça de tomada do poder por forças marxistas, em Lisboa, provocou uma reacção violenta de rejeição nos arquipélagos. Essa reacção fez despertar aflorações separatistas e para evitar males maiores inventou-se a autonomia.
Sendo as coisas o que são não será sensato pôr em causa uma realidade que já leva 35 anos. Mas será mais insensato ainda querer passar daqui. O radicalismo de algumas vozes e o à vontade irresponsável de alguns jornalistas e comentadores, que passaram a falar em “federação” e outros temas como quem combina ir beber umas imperiais e comer uns tremoços, não augura nada de bom.
Desenganem-se os optimistas, o sistema está eivado de erros e os partidos politicos simplesmente não prestam.
As coisas não só podem piorar, como vão piorar.

sábado, 4 de dezembro de 2010

SEGURANÇA INTERNA VS DEFESA

28/3/2010

            Notícias recentes dos jornais, informam-nos que o Governo vai reforçar as forças de Segurança (FS) (PSP e GNR) em 2000 efectivos, ao passo que vai cortar em 2600, os efectivos das  FAs, nomeadamente nos seus quadros permanentes.
            Ora isto acontece pela enésima vez nos últimos 20 e tal anos! Aumentam-se os efectivos e restantes meios das forças de segurança e reduzem-se os das FAs e aqueles afectos à defesa nacional, no seu âmbito geral.
            Nós sabemos o significado disto e pela enésima vez, também, já o comentámos. Mas como por parte dos excelentíssimos comentadores, ilustríssimos jornalistas, e eméritos políticos em exercício, reputados chefes e ex-chefes militares e povo em geral, não se manifestam sequer por um pio que se oiça, sobre o que por aí vai, reservo-me o direito de cidadão teimoso, de tornar ao mesmo.
            Note-se a incongruência: numa altura em que o governo pela pessoa do MAI, apresenta o relatório sobre a criminalidade do ano anterior e se congratula com as melhorias registadas, apesar de ténues (com o devido respeito não acreditamos em nada com as ilações e realçamos as omissões...), simultaneamente pretende reforçar as polícias, civis e militares; numa época em que as FAs  vêm as suas missões acrescidas, combatem em vários teatros de operações e há 25 anos que andam a ser causticadas com toda a sorte de constrangimentos – que nenhum outro grupo profissional ou empresa, aguentava! – eis que lhe dão mais duas machadadas: redução de efectivos e cortes na lei de programação militar, lei esta que representa a maior mentira política e hipocrisia de carácter, desde que passámos a ter governos constitucionais baseados na Lei Maior de 1976.
       Uma ressalva é necessário fazer: o recrutamento de efectivos que se pretende neste momento,tem sobretudo a ver com recompletamento,de modo a compensar as passagens à reforma e outras saidas.Isto acontece porque os actos admnistrativos do MAI para as incorporações,são constantementes adiados,por razões politico/financeiras,o que causa as maiores dificuldades na continuidade dos cursos e na gestão do pessoal (já chegaram até a acabar  cursos antes de tempo...) . Na PSP,por ex,,  não há cursos para “subchefes”- o equivalente a sargentos nas FAs - desde 2005!
       Que comentários nos suscita toda esta problemática? Primeiro as FAs têm sido competentes no cumprimento das suas missões, com meios diminuídos. Resultado, cortes acrescidos. Segundo, as FS têm falhado na sua missão, dado que os diferentes tipos de crime e a insegurança têm aumentado (e não vale a pena os diferentes ministros se esfalfarem em dizer o contrário, pois toda a gente sente o oposto!).
Resultado, os seus meios aumentam sem parar. Há aqui a dizer também, que grande parte do insucesso das FS, as ultrapassa, tem a ver com as leis inadequadas, falta de autoridade e mau funcionamento da máquina judicial. Mas já lá iremos. Terceiro, aumentar a segurança interna e diminuir a externa, quer dizer que há perigo para o regime?; aumento incontrolável da violência social? perigo de terrorismo? Se assim é, porque não se assume e se explica? Se a ameaça externa baixou, alguém a sentiu?
Porque é que o(s) governo(s) continuam a ligar-se a toda a sorte de organizações internacionais de defesa e de iniciativas de defesa avançada da fronteira, e de missões ditas de paz e humanitárias, no minimo discutiveis, relativamente aos interesses nacionais? E nesse caso faz sentido diminuir os meios, quando se sabe há anos que está tudo preso por arames, não há reservas de coisa nenhuma e nem sequer se consegue recrutar soldados? Está montado um monumental e confrangedor, faz de conta?
E como compreender o corte de efectivos nos sargentos e oficiais dos quadros permanentes quando se sabe que eles são polivalentes, acumulam um capital de experiência e saber que não existe em mais nenhum grupo profissional da Nação e são a única capacidade restante capaz de aumentar rapidamente o dispositivo militar em caso de necessidade? O que se anda a fazer parece ser da maior irresponsabilidade, não ser admissível, nem  perdoável!
            Outra reflexão: acusava-se e acusa-se, o Estado Novo de ditadura e de estado policial. Curioso.
            Quando existíamos do Minho a Timor, espalhados por quatro oceanos e continentes, e possuíamos cerca de 2 milhões de km2 e 22 milhões de almas, existiam cerca de 1/3 dos efectivos da PSP e GNR (esta última, só existia na Metrópole!...), e havia uma polícia de informações altamente repressiva(?!), que no máximo dos efectivos não chegava a 3000, grande parte dos quais estava empenhado directamente na contra subversão que ocorria em Angola, Moçambique e Guiné. Dava pelo nome de PIDE/DGS.
Veio uma constituição e órgãos de soberania super democráticos e o que assistimos? Pois a dita PIDE/DGS foi substituída por quatro organismos a saber: o Serviço de Informação e Segurança (SIS), o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e a Divisão de Informações Militares (DIMIL). Isto claro, sem contar com as unidades especiais para lidar com alta violência existentes, na GNR, PSP e PJ. Desconhecem-se os efectivos… Afinal como é que se define um estado policial?.
            Com isto dito é preciso acrescentar o seguinte: aumentar os efectivos das FS não resolve nenhum problema; até podiam ser 200000!, só aumenta os custos e a confusão.
O que é necessário fazer é legislar adequadamente para portugueses (e não para outros quaisquer que uns tontos desejem que existam!); fazer cumprir a lei e não actuar para as estatísticas, esvaziar prisões ou fazer experiências sociológicas delirantes; arranjar uma organização para a jurisprudência que seja para  funcionar e não para arranjar equilíbrios funestos, servir doutrinas decadentes e irrealistas e conseguir porções de poder partidário; arranjar uma hierarquia pura e dura na polícia, que funcione, exerça liderança e imponha disciplina e defenda os seus homens o que permitiria, à partida, acabar com os sindicatos, que são areia na engrenagem,uma tentativa de duplicação da cadeia hierárquica e só servem para que forças políticas tenham poder efectivo que não lhes advém dos votos expressos nas urnas.
            E, de resto, para que se quer aumentar os efectivos das FS, se eles não podem exercer violência sobre ninguém a não ser em caso de auto defesa e mesmo assim sabe Deus? (para quando a autorização para o uso de lagartas nas operações stop, por ex.?). Isto traz-nos a outra questão: nós não precisamos de muitos policias: precisamos de bons e com autoridade! (segundo creio a formação de guardas na PSP deve ser mais puxada e exigente de modo a evitar serem “alvos”,em vez de agentes).
            Tudo isto, mais meia dúzia de pequenas coisas, à revelia daquilo que os aficionados da Revolução Francesa, à mistura com a trupe saudosista do Maio de 68, em França, gosta, e resolviam-se os problemas em três tempos.
            Até lá a Segurança Nacional, que é uma simbiose da segurança interna e da defesa externa, consubstanciada num estado de espírito, irá estiolar e perder capacidades.
            Mas enfim, não é em universidades “independentes”, nem nas juventudes partidárias, que se aprendem estas coisas.

SOBRE ECONOMIA E FINANÇAS EM PORTUGAL

14/2/10
           Apesar dos “fait divers” dos “acoplamentos homossexuais”, que não são tão “divers” como isso pois visam a subversão da sociedade, e das questões fundamentais de soberania a que ninguém liga, por devidamente anestesiadas, vive impante na preocupação lusa a (péssima) realidade financeira e económica portuguesa.
             Não é dispicienda esta preocupação.
            Fala-se muito na dependência da conjuntura internacional para explicar o casulo da crise omnipresente, que nos envolve e em que estamos submersos. Mas poucos tomam em devida conta, que se somos vulneráveis ao que nos vem de fora, melhor faríamos em não nos deixarmos cair em vulnerabilidades próprias e dependências alheias em que a nossa ingovernabilidade e fraco siso nos colocam e nos tornam mais susceptíveis às crises dos outros. Disso somos relapsos em reflectir, por nos cair no regaço…
            De facto nós hoje somos vulneráveis a tudo e quando um especulador internacional espirra o país constipa-se.
            A razão é simples: o Estado Português – e por extensão a Nação que é suposto representar – quase não tem Poder, desbarata o que existe e não sabe o que fazer com o que resta, a não ser distribuir prebendas pelos acólitos e gastar réditos e esforços no controlo dos votos.
            Com a queda da União Soviética deixou de haver contraponto ao regime capitalista a nível mundial, sobretudo depois da China ter enveredado pelo mesmo caminho.
            Não estamos a dizer isto por defendermos os regimes comunistas que são utópicos e anti-naturais – e de expressão prática selvagem e inhumana – mas porque se deixou caminho livre a uma fauna que está longe de ser melhor, mas usa métodos mais sofisticados: as máfias do capitalismo selvagem.
            A situação em Portugal esteve controlada durante o “Estado Novo”, melhor dizendo, pelo Prof. Salazar, que manteve os primeiros fora de portas e os segundos, em respeito. No mais, elaborou uma teia de entendimento entre empresários e operários controlando organizações de patrões e sindicatos, visando a harmonia social e não o conflito permanente. Daí promovendo o equilíbrio e a justiça social, o que só se consegue na ordem e não na desordem.
Os banqueiros não só estavam em respeito como lhe tinham respeito; a especulação (bolsa) era controlada e as multinacionais tinham que cumprir as regras decretadas. Poderia haver excepções, mas o mote era o indicado e cumpria-se. A profundidade estratégica do “todo português” permitia opções, tinha peso internacional e garantia capacidades existentes ou futuras.
            Portugal tinha uma Ideia de si mesmo, uma política nacional portuguesa e estratégias para a sustentar.
            Havia a noção de que a Economia não era um fim em si mesma, derivava de uma política e era instrumento de uma estratégia; e que o sistema financeiro se destinava a contentar e a promover o sector económico, onde fosse mais necessário e não propriamente a engordar banqueiros e, ou, a promover “lobbies” de poder, pelo Poder.
            Estas falhas de entendimento, constituem os maiores pecados desta III República, ignorante da História, da Geopolítica, da Geoestratégia e inerme de portugalidade.
            Ou seja, tudo estava controlado e em mãos portuguesas (sérias!) e a esta situação não é certamente estranha a decisão dos poderes internacionalistas de acabarem com o Poder em Lisboa, em 1974, aproveitando a ignorância e a ingenuidade da maioria dos meus camaradas, capitães na altura.
            Passados 36 anos daquela esquina da História, estamos hoje confrontados com uma crise política gravíssima que já tem laivos de crise de regime – ela própria causa e não consequência, da crise económica e financeira (e sobretudo moral) em que nos encontramos, e que não poderemos resolver enquanto aquela se mantiver.
            E que, para bem ou mal dos nossos pecados, - lamento afirmar - se irá agravar.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

TELEFÓNICA E MUNDIAL: ESPANHA 2 - PORTUGAL 0

05/07/2010

Não há cidade cercada que resista a um burro carregado de ouro”
Provérbio romano

Que Portugal tenha perdido com a Espanha, em futebol, durante o campeonato do mundo, não deslustra. Estamos no campo desportivo, a equipa espanhola era superior a vários títulos, jogou com cabeça, cometeu poucos erros, atacou e ganhou.
           O que deslustra na equipa lusa é a pouca disciplina e coesão entre jogadores e equipa técnica, a falta de ambição em jogar ao ataque (só a ofensiva conduz à vitória – é um princípio da guerra...) e a falta de discernimento em reagir. “Comer a relva” é, por vezes, necessário e esta equipa mostrou não ter moral para o fazer.
            A goleada aos coitados da Coreia do Norte foi uma ilusão. De facto não custa jogar bem e meter golos a uma equipa fraca e que se desmoronou. As equipas mostram a sua fibra (como os Exércitos), quando estão a perder e sabem perder, ou dar a volta ao resultado. Pensar o contrário é um erro.  
            O que deslustra na Federação é não saber tirar ilações correctas, fugir para a frente, não fazer trabalho continuado, ceder a protagonismos e não impor regras e austeridade. O que deslustra é apostar em jogadores naturalizados ou técnicos estrangeiros. Se a selecção é nacional, toda a equipa, desde o presidente da Federação ao apanha bolas deve ser português. Se os outros não pensam assim, paciência, cabe-nos dar o exemplo. O que deslustra é viver acima das nossas possibilidades e ainda querer organizar torneios internacionais em conjunto com a vizinha Espanha. A ignorância histórica e geopolítica, mata.
            O caso PT/Telefónica é fruto deste último âmbito e é muito mais grave do que o resultado futebolístico. Já não estamos no campo do desporto, mexe com coisas sérias.
            Ao contrário do que é costume – e por uma vez – o governo agiu bem, embora não se saiba exactamente as razões porque resolveu vetar a compra da “Vivo” pela Telefónica, fazendo valer o trunfo da “golden share”. E também julgamos que esta posição não vai vingar, pois os políticos que temos, de um modo geral, não têm nervo, não dispõem de autoridade, desbarataram o Poder que havia e deixaram há muito de se portar como portugueses.
            Aliás este último ponto é crucial: como nos enfiámos de cabeça na UE e deixámos de ter interesses nacionais, aquela posição é insustentável, pois na UE segue-se a regra do liberalismo económico temperado, até agora, com o chamado “estado social”. Como falta dinheiro (aliás pelo menos metade do dinheiro utilizado em transacções é pura e simplesmente virtual), o estado social vai enfraquecer e o liberalismo transformar-se-á em capitalismo selvagem até se dar uma convulsão monumental.
            Seria sensato preparar, quanto antes, a saída da UE…
            Esta falta de pensar português, está aliás na origem das facilidades concedidas à Telefónica para entrar na PT e no baixar de guardas que caracteriza a política de segurança, económica, financeira, etc., do espectro partidário/governativo indígena. E quando se esperava que a maior ameaça viesse dos accionistas estrangeiros, eis que são os filhos d’algo lusos que roem a corda e dizem: venda-se!
            É a esperteza dos xicos espertos que hipotecam o futuro ao el-dourado frustre das mais valias fáceis, mas efémeras. Não resistiram ao ouro do burro…
            Não nos devemos admirar com isto. Não é de agora que as pseudo elites portuguesas, neste caso económico/financeiras, traem o seu país e o seu povo.
            Lembram-se da maoria da nobreza portuguesa que na crise de 1383-85 se bandeou para os lados de D. João de Castela, em vez de apoiarem um rei português?
            E que dizer de nobres e prelados, comprados com o ouro e os títulos oferecidos por Filipe I? E porque não se disse aos 15 mil que fugiram para o Brasil aquando da retirada estratégica da família real (essa sim bem engendrada), a fim de não ser capturada por Napoleão,que não deveriam embarcar? Porque não ficaram e lutaram com o resto da população?
            Como compreender que quase ninguém da élite monárquica, tenha terçado armas pela monarquia, em 1910 e a 6 de Outubro se tivessem adesivado, em massa, ao novo regime, que se fundou num crime, quase destruiu o país e até hoje nunca se tenha legitimado, a não ser pela ponta das baionetas (excepção para o plebiscito efectuado relativamente à Constituição de 1933, pelo Prof. Salazar…)
            Não é pois de estranhar a atitude dos accionistas portugueses da PT.
            Nós temos que instituir um sistema político em que a economia não seja um fim em si mesma, deve derivar de uma política e ser instrumento de uma estratégia; o capital sirva para financiar a economia e tenha preocupações sociais, na justa medida das possibilidades e não tenha a prioridade de engordar banqueiros e satisfazer especuladores; a moeda valha o seu valor facial e represente, de facto, a riqueza nacional, e muitas outras coisas que servissem de base a um governo competente, sério e patriota. Infelizmente incompatível, até prova em contrário, com o jogo dos actuais partidos.
            O Estado não tem que se meter na vida das pessoas mas deve estabelecer regras que morigerem os costumes e harmonizem as relações entre o capital e o trabalho. O objectivo último deve ser sempre, porém, a salvaguarda da Nação no seu todo, e isso não é compatível com serem correias de transmissão de poderes e agentes internacionalistas que ninguém votou e objectivamente conhece.
            A alternativa não é sermos dependentes e ricos ou independentes e pobres. A alternativa é entre, sermos livres com aquilo que soubermos produzir e distribuir ou escravos, a prazo, com tudo o que tal acarreta.
            Pensem nisto.
            Até lá os Cristovam de Moura e os Miguéis de Vasconcelos andam à solta. Por aí.

UM MERGULHO NA LÍBIA DE KADHAFI

Muammar Kadafi, detem o poder na Líbia
Posta em quarentena após ter sido bombardeada do ar por americanos com apoio inglês, em Abril de 1986 [1], na sequência de alegado apoio activo a actividades terroristas no mundo, a Líbia, parece ter parado no tempo. Aparentemente em represália deste ataque as autoridades líbias, certamente com várias conexões internacionais, prepararam e levaram a cabo uma sabotagem num avião americano que se despenhou em Lockerbie [2], na Escócia, morrendo todos os ocupantes.
            Na sequência foram instauradas sanções económicas e políticas. A Líbia virou para grande parte do mundo, um estado pária. O processo de julgamento internacional demorou mais de 10 anos e confirmou as ligações líbias.
            O tempo passou, os dirigentes líbios assumiram as responsabilidades no atentado (embora não o arrependimento) e a necessidade de petróleo e mercados, fez o resto: a Líbia passou pouco a pouco a sair do limbo e o seu líder Kadhafi – que está a comemorar o 38º ano no poder -, passou a ser novamente um chefe de estado a quem se podia convidar para jantar.
             A história do país conta-se em três penadas:
            Vestígios arqueológicos revelam ocupação pré-histórica; os fenícios chegaram e estabeleceram cidades em 7 AC. Seguiram-se gregos até que os romanos a incorporaram no seu império. O cristianismo ainda chegou no seu tempo, seguiram-se os vândalos e até Bizâncio ocupou parte do território.
            No século VII os árabes ocuparam e islamizaram todo o norte de África e por aí ficaram até hoje. Nada de significativo se passou entretanto. Até que em 1911 os italianos lançaram as suas garras expansionistas e transformaram-na na colónia da Tripolitania. Efémera presença que quase não deixou traço e se esfumou por 1943. Ingleses e franceses lançaram então administração tipo protectorado sobre partes dos despojos italianos, até que através da Resolução da ONU de 24/12/1951, foi outorgada a independência e a Líbia tornou-se um reino. De pouca dura também: em 1/9/1969 um jovem militar de 25 anos, assumiu o poder e republicanizou o país, que viria a ser transformado no “The Socialist People’s Libyan Arab, Jamahiriya” (seja lá o que isso for!), em 2/3/1977.
            É o terceiro maior país de África com 1.759.540 Km2, apesar de quase tudo ser areia e pedra; a densidade populacional é de 3,2 h/Km2 e a maioria está concentrada na orla costeira. Faz fronteira a este, com o Egipto; a sul, com o Sudão, Chade e Níger e a oeste com a Argélia e Tunísia. Chove pouco e o Inverno tem temperaturas moderadas sendo o restante ano  muito quente.
            O aspecto actual do país não é nada famoso. Além do ar pouco respirável devido ao calor, poeirada e poluição (falamos de Tripoli) o que vemos é desolador.  A cidade está degradadíssima, as pessoas têm mau aspecto da cabeça aos pés e são pouco sociáveis e, muitos, arrogantes e agressivas. A pobreza impera embora se veja  pouca gente a esmolar e o que mais se vê são cidadãos (?!) sentados com ar absorto ou a deambular sem destino certo.
            A burocracia e o desleixo convivem alegremente. Todos os “chefes” e são muitos, são assaz ciosos da sua “autoridade”… o sistema emperra.
            No aeroporto por exemplo, os passageiros têm que passar até chegar ao avião, aí por uns seis controlos de papelada. Mas para o RX olha-se displicentemente, quando se olha…
            A corrupção está por todo o lado. Vem dos confins dos tempos.
            O país não parece ser muito policiado, apenas se vê polícias com metralhadoras na guarda de edifícios públicos. Os militares estão metidos nos quartéis, e dos que vislumbrámos têm todos aspecto pouco cuidado. Anda-se em segurança nas ruas, que por seu lado estão pejadas de fardas brancas – os polícias de trânsito. Aparentemente servem apenas como elemento decorativo e para baixar o índice de desemprego já que o tráfego é caótico e perfeitamente indisciplinado. E quando se tira a carta – partindo do princípio que há alguma escola – devem-lhes ensinar que as linhas que dividem as avenidas, não se destinam a que os carros se conduzam entre elas, mas que o eixo longitudinal do veículo lhes siga paralelo …
            A actividade económica parece reduzir-se ao pequeno comércio de lojas e de rua e de fraca qualidade; turismo nem sabem o que seja; serviços, nem o do lixo (já lá iremos) tudo se aparenta resumir à exploração de petróleo, algumas pedreiras e agora o gás. A propósito, segundo informações colhidas num profissional do ramo, numa praia privada -  as únicas frequentáveis -, o barril do petróleo custa 2 dólares a extrair !...
            O que resta da actividade económica, já que indústria não há e a agricultura é medieva, nota-se em algum movimento portuário (tem que se importar bens …) e sobretudo na construção civil, onde se nota um surto embora muito desordenado e alguma recuperação de edifícios, sobretudo do passado colonial.
            A Líbia tem pouca população (cerca de 6 milhões de habitantes) e para além de pouca não é qualificada. De modo que o país tem importado emigrantes sobretudo de outros países árabes, para trabalhos indiferenciados e gente qualificada da Europa Ocidental e de Leste. E também chineses. Não há números certos, mas serão no mínimo três milhões, Já se notam tensões sociais por causa disto.
            A única coisa que não falta no país, são mesquitas. Estão por todo o lado.
            Existe um museu minimamente organizado que junta um pouco de tudo: desde peças arqueológicas a animais embalsamados, passando pelo artesanato e até um VW que em tempos pertenceu ao actual detentor do poder e adepto fervoroso do campismo touareg. A actividade cultural aparenta ser inexistente. Poucos quiosques vendem meia  dúzia de jornais e revistas.
            A única coisa que faz lembrar alguma socialização são os cafés onde se fuma a típica “chicha” e uns jardins onde uns magotes de pessoas se tentar aliviar do calor.
            Curiosamente nalguns destes jardins e a horas mortas (de manhã) vislumbram-se casais isolados que entabulam namoros primitivos. É um avanço !
            A curta ocupação colonial italiana não deixou marcas a não ser a actual e imponente embaixada e a unica coisa que há merecedora de visita, 200 km em redor, são as ruínas de duas antigas cidades romanas: Sabrata e Leptis magna.
            Este é um curto resumo do país de Kadhafi – aparentemente tudo se conflui nele e na sua família – que após 38 anos no poder e uma riqueza enorme no subsolo não dá ao visitante outro retrato que não este.
            O regime que ninguém sabe identificar claramente e que resulta de uma mescla de autoritarismo típico árabe com noções de marxismo mal mastigado e umas ideias peregrinas (verdes), para condimentar, a única medida palpável com que se topa é a distribuição gratuita de pão a quem o não pode pagar – embora ninguém conseguisse explicar como isso se processa. Enquanto isso, só a alcatifa que forra o avião particular do grande líder custou 15 milhões de dólares, mas dificilmente se consegue encontrar manteiga à venda...
            O senhor, dizem, não dorme muitas vezes no mesmo sítio e não se sabe onde e possui um “bunker” perto do centro da cidade guardado a sete chaves. E quando alguém o aborrece ou a algum dos seus, como aconteceu há pouco tempo com um dos filhos que a polícia suíça teve o atrevimento de questionar, por alegada agressão a pessoal do hotel onde se aboletava, não há problemas: suspende-se de imediato os voos para Genéve !
            Resta saber a gravidade do contrabando nuclear detectado na Suíça, em Junho passado, com destino à Líbia e que envolvia um conhecido cientista nuclear paquistanês. Há gente que não tem emenda, e outros que não aprendem…
            Mas a imagem de marca da Líbia que choca qualquer ser civilizado é o lixo.
            O país assemalha-se a um monturo gigantesco. Tal situação é incompreensível.
            Em primeiro lugar por não ser possível não haver dinheiro nem vontade (ainda por cima há paletes de gente sem fazer nada…) para montar um serviço de limpeza que funcione (para já não falar em educar as pessoas para a higiene); por outro, como é imaginável ao comum dos habitantes aceitarem viver no meio de tanta javardice!
            Na Guiné, onde também já estive, ainda passava um carro do lixo de vez em quando. Mas a natureza era pródiga: havia jagudis (abutres). Ora os jagudis eram melhores que um batalhão de “almeidas”, pois até comiam o lixo. Acontece, porém, que nem os jagudis querem viver na Líbia.
            Só resta uma solução.
            Agora que os negócios de Portugal se estão a encaminhar para este simulacro de país, e que o nosso ministro, entre todos o Primeiro, está prestes a fazer do mentor da Jamahiriya, o seu terceiro grande amigo (a seguir a Zapatero e Chávez), o governo português devia oferecer à Líbia os serviços da ASAE (recomenda-se visita ao mercado). Por duas razões: Prestávamos (apesar de tudo) um bom serviço ao planeta e, livrávamo-nos deles.


[1] Foram bombardeadas as duas principais cidades do país: Tripoli e Bengazi, tendo morrido cerca de 100 pessoas incluindo uma filha adoptiva de Kadhafi, de dois anos. O bombardeamento foi um acto de força unilateral não apoiada nas fórmulas de Direito Internacional vigentes.
[2] Voo 103 da Panam, em 2 de Dezembro de 1988, um B747, 270 mortos.

domingo, 28 de novembro de 2010

PORTUGAL: UM PAÍS QUE NÃO SE LEVA A SÉRIO!

27/7/10
e Publicado no Jornal “O Diabo” de 23/11/2010

            É do senso comum e da sabedoria popular que um qualquer indivíduo não se deve levar demasiado a sério e conseguir, até, rir-se de si próprio. Isto pretende significar que ninguém se deve julgar acima do que é, ou aquilo que não é, não se tornar obcecado por qualquer ideia ou pretensão e ser suficientemente saudável para, descontraidamente, se amenizar com eventuais disparates que pensou ou realizou.
            Isto não quer dizer que não leve nada a sério, que abdique nos princípios ou se curve a indignidades. O mesmo se pode aplicar aos países com a diferença, significativa, de que aos órgãos do Estado, não se puderem admitir, institucionalmente, algumas atitudes desculpáveis em indivíduos.
            Parece que o estado Português tem estes conceitos algo baralhados o que induz, parte da sociedade, a acompanhá-los nos erros e nas atitudes.
            Alguns exemplos ilustram o ponto.
            Não sei que país haverá no mundo, em que responsáveis do Estado, vêm publicamente afirmar que as forças Armadas vão enviar “espiões”para um determinado teatro de operações.
            Se há, não é exemplo a seguir; pois nós fizemo-lo há escassos dias e veio escarrapachado nos jornais.
            Após larga controvérsia, que durou anos, o primeiro de dois novos submarinos, que se vão tornar “NRP’s”, isto é Navios da República Portuguesa, aumentados ao serviço da Armada, foi lançado à água na Alemanha. Nenhum membro do governo esteve presente e o evento passou despercebido na comunicação social.
            Aquilo que devia constituir uma festa e ser orgulho nacional, quase parece vergonha por um parente indesejado. Só a Marinha se porta à altura, não podendo fazer mais. Qualquer troca de seringas entre presos drogados ganha mais relevância social do que este notável aumento da capacidade militar de nação. Ou nos enganamos muito, ou a recepção dentro de poucas semanas do “Tridente” em Lisboa, vai continuar nesta maré…
            Outro dia passeámos na rua principal de Beja. Esta rua, com algum favor, estende-se por uns 500 metros. No percurso contámos cerca de uma dezena de lojas chinesas. É assim no país inteiro, mas no interior nota-se mais. Nada nos move contra a comunidade chinesa mas sabe-se dos problemas económicos e financeiros por que todos passamos. Deste modo torna-se incompreensível que o Estado Português dê incentivos de vária índole para o licenciamento destes negócios. Tanto mais que os chineses integram-se pouco na sociedade portuguesa (é célebre o comentário que corre, de que nunca ninguém assistiu a um funeral de um dito cujo …); o “negócio” é apoiado pelo estado chinês e obedece a uma estratégia – extensos armazéns de produtos chineses encontram-se sediados em Badajoz, por ex., e não consta que nos concedam quaisquer reciprocidade. A extensão da “malha” é de tal forma tentacular que, entre outras coisas, pode facilmente disfarçar o maior sistema de informações que alguma vez se montou. Enfim, divagações de um tolo…
            Angola. Depois de, filantropicamente, termos perdoado a dívida de todos os territórios a que levianamente concedemos a independência misturados com sentimentos de culpa “colonialistas”, sem qualquer razão de ser, e de, inclusivé, termos alienado, estupidamente, todos os nossos interesses em Cabora Bassa; insistirmos numa cooperação militar e civil que se resume em nós darmos e eles receberem (e nunca agradecem) e mais umas quantas pérolas que o fim do “ex-império” teceu, e eis que nos lançamos no mercado angolano.
            Mergulhámos bem, pois é do interesse das partes, melhor dizendo, dos povos. E lá fomos de boa vontade, sempre com a amizade lusa a modelar a coisa. Esquecemo-nos, contudo, que negócios em Angola passam todos, ou quase todos, pelos eleitos do partido no Poder, com os constrangimentos que tal, por si só, acarretam - ao contrário do que se passa com o investimento angolano em Portugal.... E quando, justamente, as empresas portuguesas querem ver-se ressarcidas do investimento ou do negócio efectuado vêem as suas expectativas frustradas pois, a parte angolana … não paga!
            Ao fim de uns anos arranjou-se um expediente para resolver os calotes: bancos portugueses emprestam dinheiro para as autoridades/empresas angolanas, nos pagarem o que devem…
            E nós em vez de lhes acenarmos com uns mísseis (ainda chegamos para isso!), enviamos-lhes o PR, que entre sorrisos e abraços confirmou que Deus estava com os anjos.
             A maior navegação de todos os tempos, assim tida a nível mundial, foi feita por um português. Estamos a falar da primeira viagem de circum-navegação do globo e de Fernão de Magalhães. Não só ele, como os 22 portugueses que o acompanharam eram dos que mais conhecimentos possuíam, a bordo. Pois para além deste notável navegador ser quase olimpicamente ignorado pela historiografia nacional, a única estátua dele existente na terra que lhe deu o berço, foi oferecida pela República do Chile…
            Pior sorte tem Vasco da Gama, executor do feito, tido como maior, da História Pátria: ao que sabemos está reduzido a um busto em Sines, depois de uma tentativa frustrada de lhe erigir qualquer coisa na Vidigueira. No local aparentemente eleito para o efeito, acabou por ficar uma garrafa de vinho, sinal irrefutável de que andamos… etilizados.
            E como a actual União Indiana nem pode ouvir falar em tal Gama, lá se vai a esperança que um governo da estranja tome sobre si o que há muito nos cabia a nós fazer.
            Seria, esta, talvez, uma iniciativa cívica e patriótica, que colhia bem em qualquer português digno desse nome. Mas parece que não estamos para aí virados como prova a ideia posta em marcha por um grupo de quatro oficiais do quadro permanente com a idade provecta que os habilita à promoção a “avô”, e que pretendem entregar no Parlamento uma petição a fim de se reabilitar o nome de João A. Ferreira de Almeida, soldado do Corpo Expedicionário Português.
            Quem era então este aparente injustiçado?
            Nada mais nada menos do que o único militar condenado em tribunal militar,e fuzilado, por crime de traição à Pátria, em 1917, na Flandres, durante a I Grande Guerra!
            Qual a justificação para tal excelsa ideia, que já colocou em choro compulsivo algumas pedras da calçada? – e estamos a citar o Correio da Manhã de 21/7/10, que deu a notícia – pois a “comemorarmos o centenário da República e perante os valores de hoje, faz todo o sentido que lhe seja concedido o perdão”.
            Não deixa de ser irónico: o militar morre às mãos da tal República que se quer incensar, regime que tem as mãos manchadas de sangue e que se fundou num crime de regicídio e na acção de verdadeiros terroristas políticos. E que não tem à luz da História e dos homens, uma única justificação que a desculpe.
            De facto – et voilá – nós, como país, não nos podemos levar a sério e afinal a razão é simples: deixámos de ser sérios.
            E isso não dá vontade nenhuma de nos rirmos.

PORTUGAL, O PCP , IGNORÂNCIA, DISTRACÇÕES E MEMÓRIA CURTA

20/11/08

“Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos, e às vezes esquece-se da urgência de deixarmos filhos melhores para o nosso planeta”
Autor desconhecido

            Alguém se lembra, hoje em dia, do verdadeiro PCP? Ou seja aquele que foi aparentemente derrotado em 25 de Novembro de 1975?
            Certamente que muito poucos cidadãos se lembram. Alguns destes, mais conscientes e conhecedores da vida e dos homens, têm-se interrogado sobre como é ainda possível, que no século XXI, depois da derrocada da URSS e da falência do modelo comunista em todo o lugar em que foi implantado, o PC tenha uma expressão eleitoral tão elevada num país como Portugal – a que, ainda por cima, se tem que juntar a chamada extrema esquerda.
            Creio bem que só por distracção haverá lugar a qualquer tipo de admiração neste âmbito.
            Ora atentemos.
            O PCP não saiu derrotado no 25 de Novembro. Essa assumção resulta de um erro profundo de análise. O que o PC fez foi uma retirada estratégica brilhante, diga-se de passagem, disimulando-se na vida nacional e conseguindo reter respeitabilidade democrática.
            O Partido conseguiu atingir o objectivo principal que tinha – melhor dizendo, de que teria sido incumbido – e que foi a entrega do Poder, aliás num espaço de tempo muito curto, de todos os territórios ultramarinos portugueses, com excepção de Macau, nas mãos de partidos marxistas e apenas nesses, e sem qualquer referendo às populações, que  sabiam  não poder ganhar.
            A URSS averbou, assim, a sua última grande vitória na chamada “Guerra Fria”.
            No território europeu de Portugal com excepção dos arquipélagos, por via da religiosidade católica da maioria da população e por serem ilhas, o PC conseguiu subverter todo o edifício do Estado e virar do avesso a sociedade portuguesa, pondo-a à beira da guerra civil . Estamos em crer que a nível da cúpula partidária ainda se alimentou a esperança da tomada pura e dura do Poder, em Lisboa, mas a realidade geopolítica desaconselhava vivamente tal aventura e Moscovo percebeu isso rapidamente.
             E aqui temos a primeira grande razão para que o PC mantenha a sua votação: a “decalage” no tempo, isto é, enquanto os partidos comunistas por essa Europa fora foram sofrendo a erosão do tempo, o PCP apenas surgiu em força por alturas de 1974/5, já que a repressão que o anterior regime lhe moveu praticamente o impediu de actuar.
            Acresce o facto de, na sequência do 25/11/75, altura em que se poderia ter desmontado toda a previsível estrutura clandestina, os poderes emergentes vieram afirmar que o PC fazia falta à democracia portuguesa. O país está a pagar tal insensatez muito caro. Esta ideia é incompreensível, já que não há exemplo  no mundo, de um partido comunista que tenha sido governo  ter tido,alguma vez, um comportamento democrático.
            O PCP não é um partido como os outros. É um misto de estrutura militar e de seita religiosa , já que a sua doutrina funciona muito mais como uma espécie de religião.
            Tem hierarquia, disciplina, organização. Definem objectivos e estratégias; têm  princípios  e um conjunto de funcionários profissionalizados e coesos (um estado maior…).
            Os restantes partidos ao pé deles são uns aprendizes de feiticeiro, ainda por cima cheios de trapaceiros, palermas e oportunistas.
            O PC não ganha, porque a grande maioria do povo português é visceralmente contra o que defendem; porque o comunismo é avesso à natureza humana e é incompetente em termos económicos e sociais. E o comunismo revelou-se sanguinário na sua acção.
            Além disso não se pode esquecer que o PCP, durante toda a sua existência, teve um papel anti-patriótico defendendo objectivamente os interesses de uma potência estrangeira que se revelou ser inimiga de Portugal: a URSS.
            Mesmo assim ainda conseguiu juntar no funeral desse herói do Kremlin, chamado Álvaro Cunhal, uma multidão de cerca de 100.000 pessoas.
            Não se deve menosprezar o PCP e nunca se sabe o dia de amanhã.
            O PC é um multiplicador de sinergias. Em 1974, por exemplo, antes e após o golpe de estado de Abril, constituindo um grupo absolutamente minoritário no País e no seio das FAs, infiltraram-se de tal maneira no MFA [1] que conseguiram passar a dominar os acontecimentos a seu belo prazer, até 25 de Novembro de 1975. Um facto que irá ficar, certamente, nos anais das revoluções e que convém não ser esquecido.
            O PCP não é apenas um partido, é um pequeno estado dentro do estado.
            O PC não manda no sentido em que não ocupa nominalmente as cadeiras do Poder. Mas manda no sentido em que condiciona tudo o que se passa. Começa na constituição de 1976, elaborada maioritariamente sob a sua influência ideológica e cuja matriz central ainda se mantém até aos dias de hoje, mesmo depois das revisões a que já foi sujeita.
            O PC fomenta constantemente o descontentamento (qualquer que seja o governo) e depois cavalga a insatisfação. Cria estruturas paralelas de Poder; inventa partidos satélites, disfarça-se em associações, possui gráficas,redes de destribuição,condiciona a historiografia e domina os principais sindicatos. Dispõe, constantemente,  militantes seus em lugares chave, desde o topo da hierarquia do Estado até às mais pequenas juntas de freguesia. Estamos convictos de que o PC possui o melhor serviço de informações que existe em Portugal, muito superior ao SIS, SIED e SIM [2] juntos e estão preparados para passar à clandestinidade no prazo de 24H.[3]
            O PCP não é um partido é “o” Partido e merece a designação.
            A nível dos órgãos do Estado, dos Serviços de Informação, das Forças de Segurança, das FAs, etc., e até da Igreja, ninguém parece estar preocupado com a sua acção. Vivem na doce ilusão de que é tudo “democrático”ninguém sabendo ao certo o que entender por semelhante expressão.
            O PCP só se vence com doutrinação, combate ideológico, humor, leis adequadas, determinação e, claro, forças de contenção para qualquer tentativa espúria de passagem do Rubicão. Porque passar o Rubicão está-lhes na massa do sangue.
            E nem sequer é difícil, porque o modo de actuação e doutrina estão escritos são postos em prática da mesma maneira, em qualquer parte do mundo e carecem de flexibilidade de actuação. Por isso é que a tentativa de “renovar” (lembram-se dos renovadores?) o partido está votada ao insucesso. Qualquer reforma no PCP destrui-lo-ia e teria que se passar a chamar outra coisa qualquer.
            Ora tudo isto faz com que o PC tenha um Poder real desmesurado relativamente à sua expressão eleitoral.
            A última razão porque se têm aguentado tão bem reside no sofisma que têm conseguido manter, de terem sido os campeões da luta anti fascista (olha se têm ganho?!).
            As “vítimas” mortais de tal acção – onde confundiram constantemente, ou não distinguiam , a luta política contra o regime do Estado Novo, com os interesses da Nação Portuguesa, não ultrapassam as três dezenas, a maioria das quais tinha praticado acções violentas. Isto para um periodo de cerca de 50 anos. Certamente que tais vitimas (e é sempre lamentável haver vitimas) não representam mais do que uns segundos de assinaturas de condenação à morte do Kamarada José (Estaline), num dos seus dias melhores...
            A lavagem ao cérebro, as mentiras matraqueadas “ad nauseum” e as actuações desvairadas de tantos, nos anos de 1974/75 – e que continuam em versão soft -, condicionaram psicologicamente a grande maioria da população que esta continua vergada intelectualmente  pelo medo e pela ignorancia.
           E a única coisa que aparece clara e como expoente da actividade do PCP é a festa do Àvante. Tudo o resto é nevoeiro …
            Sendo a luta política, à superfície, travada no seio dos partidos políticos, aquela que, aparentemente, é mais importante, ocorre atrás das “cortinas”, fundamentalmente entre o PCP, a Opus Dei,  as diversas maçonarias clássicas e as mais finas e mais modernas, “organizações de Poder”, financeiro (e não só) internacionalista.
            Perante tudo isto o povo português, privado de uma liderança patriota, faz décadas, vive aparvalhado, privado de educação e informação e confundido pelo dilúvio e propagana mediática.
            Tem havido até agora algum pão e muito circo. A questão é o que irá acontecer quando só houver circo.


[1] Movimento das Forças Armadas.
[2] Serviço de Informações de Segurança; Serviço de Informações e Estratégia de Defesa e Serviço de Informações Militares.
[3] Queremos afirmar que não lemos ainda o livro da Zita Seabra.