domingo, 17 de outubro de 2010

OS AUMENTOS SALARIAIS E AS RELAÇÕES POLITICO-MILITARES

20/08/09

“Quem comeu o frango, há-de comer o galo, ou pagá-lo”
D. Francisco de Almeida

     Na sequência da actualização de remunerações e suplementos das Forças de Segurança(FS) - em que o governo se preparava, uma vez mais, para fazer-se esquecido relativamente ao parente pobre do Estado, em que as Forças Armadas (FAs) se transformaram depois do fim do Conselho da Revolução, em 1982 – dizia – acabou por ser aprovado, algo a martelo, o diploma que tenta harmonizar a tabela salarial e a condição militar dos, agora e apenas, tolerados militares.
     Os cidadãos que servem Portugal nas FAs, começaram por ser desnivelados dos vencimentos dos magistrados, universitários e diplomatas, que em conjunto eram tidos como os grandes pilares do Estado (e que o “Estado Novo” sábia e laboriosamente equiparara), para serem segregados, a seguir, das “alcavalas” das FS, para agora acabarem abaixo da tabela dos técnicos superiores da função pública. Ódio velho não cansa... mas, se assim é, tenham coragem e afrontem-nos, de caras e de vez!
    O presente diploma, para além de conter vários aspectos criticáveis, dispõe que os aumentos para os generais de três e quatro estrelas “dispararam” relativamente ao resto das tropas. Até parece que os querem “comprar”...
     Esta diferenciação tomou forma – salvo erro -  no primeiro governo do Prof. Cavaco Silva em que, inclusivé, se retirou as chefias militares da grelha salarial dos diferentes postos, indexando-os aos cargos politicos. Ou seja, separaram-se os chefes do resto das tropas. Ora sendo a Instituição Militar (IM), caracterizada pela forte hierquização de postos e funções é natural que a tabela de vencimentos também reflita tal pressuposto. Mas não deve, sem embargo, pôr em causa a coesão a justiça relativa, o espírito de corpo e outros atributos especificos da IM, sem os quais os Exércitos são uma ficção.
       E se os chefes militares – não sei se os quatro, se os três – apesar da violência verbal e escrita com que trataram o assunto, não conseguiram fazer valer os seus argumentos, ao menos que não aceitassem, no final, tamanha diferenciação.
     Lamentavelmente parece ter sido usada, de novo, a técnica de má conduta consubstanciada no facto das chefias serem entretidas com determinados números e pressupostos e no fim verem-se confrontados com coisas diferentes. Chama-se a isto deslealdade.
       Por tudo isto, há muitos anos que semelhantes procedimentos deveriam ter sido atalhados cerces e denunciados. Se o Dr. Portas, por ex., à segunda vez que tivesse chegado atrasado a uma cerimónia militar, já lá não encontrasse ninguém para o receber, certamente que não teria porfiado na irresponsabilidade e falta de educação do acto.
       Ou quando o Dr. Caldas, em directo na TV, quis fazer uma piada pífia com uma frase do Clemanceau – que ele julgava ser do Churchil – tivesse, logo de seguida, engolido a graça, se calhar não teriamos chegado a este plano inclinado.
      Lembram-se do Dr. Jardim? Desde que um coronel na reforma lhe assentou as costuras nos idos de 70 e muitos, que tem tido um comportamento exemplar para com os militares – enfim, questão da bandeira regional, na capitania do porto e tentativa de “assalto” ao Palácio de S. Lourenço, à parte.
     É preciso ultrapassar questões do foro “hortícola” que nos tolhem e que têm permitido abusos e desconsiderações. Mas só assim poderemos ser respeitados.
       O que mais dói, é que os estimáveis profissionais de uma instituição acima de tudo patriótica, que obrigatoriamente tem de dar de si uma imagem de coragem – fisica e moral – e que se consideram, com alguma justiça, os catedráticos da estratégia, da táctica, da logística, operacionais ferozes de várias artes e saberes, se deixem – ao fim e ao cabo – tosquiar como cordeiros mansos, sem um ai! que se oiça.
    Ainda por cima por aprendizes da política, de muito baixa categoria.
    Tenho pena que assim seja. E muita vergonha.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

UMA COISA BEM FEITA

15/06/09

“Em todas as partes do mundo por onde andei, ao ver uma ponte perguntei quem a tinha feito, respondiam os portugueses; ao ver uma estrada fazia a mesma pergunta e respondiam: portugueses. Ao ver uma igreja ou uma fortaleza, sempre a mesma resposta, portugueses, portugueses, portugueses. Desejava pois, que da acção francesa em Marrocos daqui a séculos seja possível dizer o mesmo”
Marechal Lyautey

            A RTP levou a cabo nas últimas semanas um programa onde mostrava 27 monumentos construídos pelos portugueses durante a sua incrível expansão pelo mundo. O objectivo, além de explicar aos contemporâneos os quês e os porquês destas construções, normalmente de índole militar ou religiosa, era o de eleger sete delas como as mais significativas.
              Em boa hora o fez.
            Este programa marca, seguramente, um ponto de viragem na reconciliação dos portugueses com a sua História, que tinha sido posta em causa e maltratada, no seguimento do vendaval de loucura que se apoderou do país após a “Revolução dos Cravos”, nos idos de 74/75.
           Para tal concorreu também, a invasão da historiografia marxista, (e libertária) que impregnou,de um modo geral, o ensino, as artes e a cultura nacionais,  e sobre a qual não se tem feito o devido combate ideológico e a denúncia de métodos e intenções.
            Muito há ainda por fazer para pôr as coisas no são, ao passo que seria útil e ficaria bem fazer-se um exame de consciência de como uma sociedade madura por nove séculos de História, se deixa cair em perigosos alçapões ideológicos e pântanos políticos com os custos que lhe são inerentes. Quando se sabe ou se quer, contabilizá-los...
            O valor  da obra dos portugueses que se desenvolveu durante séculos por todo o mundo, aparece assim aos olhos dos contemporâneos tolhidos por uma vivência “pequenina”, atrofiados por ideias erradas e antinacionais, como inacreditável e incompreensível.
            É pois preciso explicar as coisas como elas foram, às novas gerações, tecnocratizadas, imbecilizadas pelos mitos modernos e a quem não se quer incutir sonhos nem ideais.
            As declarações de portuguesismo, de descendentes dos nossos antepassados, a comovente evocação da nossa cultura e da nossa língua, a saudade – que só nós compreendemos – revelados durante os diferentes programas da série, são demonstrações pungentes da maneira única dos portugueses estarem no mundo e a prova evidente e trágica de como os actuais poderes em Portugal têm votado ao abandono e ostracismo, a nossa herança histórica e o legado da diáspora.
            Todas as tiradas políticas grandiloquentes, têm-se revelado ocas de realizações práticas consequentes. A grande amizade que os revolucionários e constitucionalistas pensaram que iria resultar do vergonhoso reconhecimento “de jure” da, para sempre maldita, invasão de Goa, Damão e Diu, por parte da União Indiana nada produziu a não ser um desdém continuado do governo de Nova Deli para comnosco quando não em insultos por parte de académicos indianos que presurosamente teimamos em convidar para nossa casa falar sobre a História comum; no Brasil campeia a ignorância sobre a História luso-brasileira e as anedotas de mau gosto sobre os portugueses – a quem eles praticamente tudo devem (para já não falar na “ditadura” ortográfica que nos querem impôr); a CPLP marca passo; a cooperação civil e militar com os PALOP’s, que poderia ter uma importância muito grande, não consegue ultrapassar a fase do “nós damos e eles recebem, depois estragam, voltam a pedir e nós voltamos a dar…”.
Não tem um objectivo político e estratégico que a oriente e dignifique. Custa-nos uma soma considerável e temos amiúde como paga ouvir uns remoques idiotas e exigencias espúrias, como aconteceu agora num blogue moçambicano, onde a propósito do programa aqui tratado se alude ao comércio de escravos que os portugueses praticaram quando a verdade manda dizer que os primeiros escravocratas eram os sobas locais que vendiam o seu próprio povo…
            Perante tudo isto o Instituto Camões cujo objectivo é “espalhar” a língua portuguesa pelo mundo – e outras instituições congéneres vêm a sua acção frustrada pela baixa politiquice que medra no Terreiro do Paço e por um conjunto de ideias frustes que nascem na cabeça de alguns adiantados mentais.
            Enfim, um bom serviço público de televisão no meio de tanta asneira feita e de tanto tempo perdido.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

“O ÊXODO” DOS PILOTOS DA FORÇA AÉREA

“Desde os mesteres mais humildes até ao mais sublime, avançar de cara alegre direito à morte, tudo faz, porque todo o trabalho despido de interesse pessoal entra nos deveres da profissão. Trabalho gratuito sempre porque o vencimento de militar, seja pret,soldo ou lista civil, nunca é a remuneração do serviço por não haver dinheiro que pague o sacrifício da vida”.
Mouzinho de Albuquerque in,”Carta ao Príncipe D. Luís Filipe”

Doze F16  da força aérea Portuguesa alinhados na placa do aeroporto do Porto Santo
            O tema da saída dos pilotos militares a meio da sua carreira (agora em qualquer altura da sua carreira …), para as companhias civis de aviação, é recorrente na sociedade portuguesa, como já o foi e ainda é nos países ocidentais, e também um pouco por todo o mundo. Cada caso é, porém, um caso.
            Já escrevemos várias vezes sobre este assunto, tanto artigos de opinião como em documentos de serviço. Há anos que tudo isto se arrasta sem nunca ninguém ter feito nada de sério para o resolver ou atenuar.
            Os chefes militares para actuarem sobre este assunto (não pode ser só o da Força Aérea) têm que partir, creio, de três premissas:
            - os políticos estão-se borrifando para o mesmo;
            - as empresas do meio, não estão interessadas em colaborar em nada;
- o politicamente correcto e o estado das leis, tende a valorizar os “direitos” (desejos) individuais em detrimento das necessidades colectivas.
            Bom, o estado actual das coisas é de ruptura. A Força Aérea em pilotos, já quase só tem tenentes, coronéis e generais. E um dia destes nem nestes últimos postos, vai ter.
            Havendo agora mais uma perspectiva de saída de pilotos (uma “mina” para as empresas civis!), surgiu a ideia, várias vezes ensaiada, de aumentar substancialmente o subsídio de risco de voo que já é pago e que para o vulgo ter uma ideia, representa uma média de cem contos a mais no vencimento, relativamente aos postos equivalentes dos outros militares.
            Ora isto, que representa a maneira mais fácil de olhar para o problema, é um disparate e um erro (como é o de querer tirar o existente ..). Em primeiro lugar porque a discriminação positiva (é o caso), também deve ter limites. E se for difícil encontrar baias regulamentares, que se use o bom senso… Tal facto irá gerar situações de injustiça – logo de conflito -, no seio da FA, com o pessoal das outras especialidades e ainda com o Exército e a Armada. E diga-se que com razão. Esta conflitualidade seria grave e ninguém sabe, honestamente, calcular ao que poderia levar e seus custos.
            Além disto, vivemos num momento em que o que se torna necessário é unir esforços para se aumentar o vencimento base de todos de modo a atenuar o espartilho financeiro que há anos tem sido imposto à família militar.
            Finalmente é um erro, porque não se iria resolver coisa alguma pela simples razão que por maior que fosse o aumento do “risco de voo”, tal nunca chegaria ao que ganha um piloto civil nomeadamente nas companhias mais apetecidas.
            Além disso o problema que afecta os pilotos da FA, como a generalidade dos militares, está longe se de esgotar no vil metal.
            A situação é complexa e exige um tratamento em várias “frentes” e requer medidas “positivas” e não negativas, como tem sido timbre na FA: por exemplo,mudança constante de procedimentos; aumento do tempo de serviço para se poder sair e das indemnizações a pagar.
Passam em termos gerais por:
1 - harmonização por parte do Estado dos salários e “outras condições”, que paga aos funcionários equivalentes nas empresas públicas, cujo expoente para o caso que estamos a tratar é a TAP. O que se passa é imoral. Não, não se trata de nivelar por baixo nem de atentar contra direitos adquiridos (se calhar mal adquiridos). Trata-se de pôr as coisas no são e de estabelecer justiça relativa. O mesmo patrão, deve tratar todos os seus servidores e empregados de modo equitativo. E se por acaso quiser tratar alguém melhor, esses seriam indubitavelmente os militares, por razões que me dispenso de enumerar, para não ofender a inteligência dos leitores;
2 - por outro lado as FAs deviam, através do MDN – para isto é que ele existe -, procurar um entendimento com as empresas públicas e até eventualmente com privadas, porque não?!, para aceitarem um número limitado de pilotos que atingissem um determinado número de anos de serviço, o que permitiria uma “saída por cima”, racionalização das promoções e melhoria da gestão de pessoal. Para as companhias civis seria um benefício por terem a garantia de receberem pilotos experientes sem terem gasto um cêntimo de investimento;
3 - se criar  uma espécie de reserva activa para pilotos, em moldes a estudar, o que permitiria que pilotos a voarem em companhias civis pudessem manter qualificações em aviões militares e deste modo reforçar o potencial disponível das FAs, no seu dia a dia e em caso de crise ou guerra;
4 - se manter nas fileiras um Moral elevado, este é o assunto que mais deveria preocupar as chefias militares. Manter um moral elevado é um assunto de sempre do comando militar e passa por atender a um conjunto intrincado de questões e situações como são a consciência da importância da missão, a aderência a um conjunto de regras e valores; a confiança nos chefes e na instituição; a realização pessoal; o patriotismo, a defesa institucional, o reconhecimento público, etc. Ora se tal não se passar, podem pagar milhões, que as coisas não ficam bem. E, claro, deixamos de ter militares para ter mercenários;
5 - finalmente, é fundamental estancar a depreciação social dos militares e a desvalorização da condição militar.
Sem embargo de ser um assunto que ultrapassa largamente as FAs, estas não se podem alhear de terem um papel importante na sua resolução e não se limitarem a tentarem bem cumprir as suas missões com os escassos meios que lhe são atribuídos e a servirem de saco de levar pancada. Já chega!
 Insistir em resolver os problemas do modo usado até agora, é pensar com a cabeça sim, mas … dos pés! É preciso ter imaginação e espinha.
            Mouzinho sabia do que falava, mas quem é que o lê hoje em dia?

O NOVO AEROPORTO DE LISBOA E A DEFESA NACIONAL

Tomada a decisão de construir o novo aeroporto de Lisboa, na OTA, nos idos de 1999, esta foi aboborando e sendo contestada até que, em Janeiro de 2008, o governo após grande controvérsia mudou a agulha para Alcochete.
            Acontece que na zona de Alcochete existem instalações militares afectas à Defesa Nacional (DN), actualmente sob a alçada da Força Aérea (FA) mas que se destinam a apoiar também os outros Ramos, as Forças de Segurança e o que resta das indústrias de Defesa. Existem ainda paióis. A principal função do Campo é,  sem embargo, o de permitir o treino dos pilotos da FA na largada de armamento real e de treino (tiro ar-solo). Quando necessário reserva-se um espaço aéreo sobre o mar entre a Nazaré e a Figueira da Foz, para tiro ar-ar.
            Muito raramente faz-se tiro ar-solo em S. Margarida em manobras conjuntas com forças terrestres, mas com muitas limitações,que têm a ver com a segurança das populações vizinhas. Estas limitações não são susceptíveis de desaparecer.
            Quer isto dizer que se Alcochete fecha como carreira de tiro, não há hipóteses de manter as qualificações operacionais dos pilotos em tiro ar-solo em território nacional. A não ser que se faça outra carreira de tiro.
            As Forças Armadas não existem para impedir o desenvolvimento do país e não passa pela cabeça de nenhum militar qualquer pensamento que possa ir nesse sentido. O problema é que também não poderá haver desenvolvimento sem segurança e quando um choca com o outro há que se fazer opções, chegar a compromissos e arranjar alternativas que salvaguardem interesses fundamentais ou importantes.
            Pelo que sabemos nada disto foi ou está acautelado, daí a nossa preocupação e a razão deste escrito.
            Com  voz mansa alguns comentadores e entidades, vieram dizer publicamente que a razão da inicial impossibilidade da ida do Aeroporto para Alcochete era a oposição dos militares. Ninguém desmentiu nem aquiesceu, pela simples razão de, em Portugal, haver uma dificuldade cromossomática em se assumir as coisas.
            Sobre este assunto destaco o Sr. MDN que sobre a questão proferiu generalidades no tom cinzentinho a que nos habituou; o Sr. Van Zeller, grande impulsionador da opção Alcochete, que do alto da sua pesporrencia ignorante e atrevida bolsou uma frase épica: “os militares que vão dar tiros para a Andaluzia ou para Marrocos”, esquecendo-se,contudo, de acrescentar se também pagava; se já tinha conversado com as autoridades que por lá mandam e se salvaguardava os problemas de soberania que daí adviessem. Finalmente o chefe da FA afirmou “urbi et orbi” que a “FA era parte da solução, não era parte do problema”: Parece curto ….
            A questão ultrapassa, até, a FA. O CTA diz respeito a todos os Ramos logo deveria ser também  objecto de análise no Conselho de Chefes de Estado-Maior e de eventual preocupação pública, por parte do CEMGFA.
            Mais, como tal mexe no dispositivo e no sistema de Forças, a questão deveria ser ainda discutida em Conselho Superior de Defesa Nacional. E eu arrisco-me a dizer que as chefias militares, nunca deveriam ter dado o seu aval a uma decisão destas sem terem garantido que se iria construir em tempo útil e sem solução de continuidade, uma alternativa adequada ao CTA. E deviam-no fazer porque, infelizmente ,deixou de se poder acreditar nos políticos.
            Veio à baila a hipótese de Mértola,zona conhecida por Vale dos Mortos,próxima de Vila Verde de Ficalho (que é longe – um F-16, por ex., para lá ir gasta 3 a 4 vezes mais combustível de que ir a Alcochete e provavelmente teria que aterrar em Beja, e tem problemas de ricochetes, etc.),mas é um nado morto. Mesmo partindo do princípio, altamente duvidoso, que existam meia dúzia de políticos em Portugal, preocupados com a DN, alguém acredita que haja um governo que tenha  vontade política para gastar uns largos milhões de euros num espaço onde uns tipos – que eles ainda por cima detestam -, vão dar tiros?
            Para os mais cépticos lembro que desde 1975, já fecharam cerca de 200 órgãos e unidades militares. E foram construídos de raiz, com dinheiro nacional, que me lembre quatro: a Academia da Força Aèrea (por falta de acordo com o Exercito); a Escola Prática de Administração Militar, na Póvoa de Varzim (por troca com os terrenos da anterior sita no Lumiar); o hangar para os helicópteros da Marinha (dentro da Base Aérea do Montijo) e o Depósito de Material de Guerra, em Benavente (por troca com os terrenos cedidos à Expo 98).
            Será que não estou a ser razoável?

domingo, 10 de outubro de 2010

O “PREC”(1) NÃO ACABA...

12/04/09

           A recente proposta – ainda envolta em certo mistério – de promoção do Cor. Jaime Neves a Maj.Gen. tem gerado alguma controversia pública.
Correndo o risco de ferir diversas consciências, não quero eximir-me a dar o meu testemunho sobre a questão por a julgar de importância.
Sou dos que penso não ter a proposta fundamento nem curialidade suficiente que a justifique. Com o devido respeito, acho-a até pouco sensata. Todavia, as razões que sustentam a minha posição não são aquelas que tenho visto expostas.
Quero começar por dizer que a figura e o valor do cor. Jaime Neves não está em causa e estranho, outrossim, que a proposta de promoção esteja envolta em certo secretismo que nada parece justificar. Estas coisas só ganham em ter transparência, até para não serem confundidas com “segundas intenções”.
Mas vamos lá ao cerne do problema.
O pecado original que dá origem, 35 anos depois, a esta polémica escusada, ocorreu no dia 25 de Abril de 1974, dia que marca uma tentativa de golpe de Estado malogrado. Nesse dia deu-se, no âmbito da Instituição Militar (IM), início a um processo de saneamentos e prisões fora das regras da Justiça e da Disciplina Militares, que quase destruiu as Forças Armadas (FAs), e comprometeu o futuro da Nação.
O período de desregramento castastrófico, politico, social e moral, que se seguiu e que só foi travado – embora não completamente – em 25 de Novembro de 1975, viu um pouco de tudo. Após esta data, aproveitou-se a embalagem e lá se fizeram mais umas quantas prisões e saneamentos.
Sossegados os ânimos e tendo sido criadas, lentamente, condições para que o país pudesse passar a viver e a trabalhar, não direi “habitualmente”, mas com alguma serenidade podia-se ter criado as condições para sarar feridas e admnistrar justiça.
Fazer isto no âmbito militar exigiria que se levantassem processos a todos sobre quem recaíssem suspeitas de acções iníquas, ou a pedido daqueles que se sentissem injustiçados. A nivel institucional era fundamental separar o trigo do joio. E separar o trigo do joio não era julgar cada um segundo as suas opções politicas, mas sim averiguar quem se tinha comportado segundo “os ditames da virtude e da honra”e quem se tinha desviado deles.
Não era de somenos intentar isto – apesar de não ser fácil – pois só semelhante procedimento pertencia ao Direito e à Justiça e só ele permitia salvaguardar a IM no futuro – não é por acaso que as FAs não saem da menoridade confrangedora em que se encontram!
Como nada disto foi feito gerou-se uma atmosfera de desconfiança colectiva e um ambiente de todos contra todos, que a usura do tempo e o curso implacável da natureza não têm conseguido eliminar.
Ora não se tendo tomado as medidas correctas – e aqui a responsabilidade já não é só dos responsáveis militares mas alarga-se às forças politicas e aos orgãos do Estado – ainda se foi piorar as coisas reitegrando os saneados ou afastados na sequência dos vários eventos ocorridos. Isto é, meteu-se tudo no mesmo saco, numa tentativa de branqueamento da História que não deixa de ser equiparável ao apagamento da célebre foto de Trotsky!
A seguir foi-se promovendo todo o bicho careta a coronel e, não contentes com isto – enquanto houve dinheiro na tesouraria - foi-se inventando subsidios como óbulos: aos ex-combatentes, aos prisioneiros de guerra, aos deficientes,etc.
Até o ex-capitão Valentim Loureiro, que nunca teve nada a ver com os dois “25s” e tinha sido expulso do Exército por indecente e má figura, foi reintegrado e promovido a major!
Ou seja o caminho que, conscientemente, se intentou seguir, deu origem a um cortejo de injustiças, vigarices, oportunismos e outro adjectivos que antigamente se ensinavam na escola e na família, como tendo má cotação social.
E foi assim que de erro em asneira e de asneira em erro, se chegou à proposta de promoção de Jaime Neves a oficial general. Pois se já se integrou (e louvou), desertores, não se há-de promover o Jaime, que não as cortava, perguntarão alguns? A questão em si é uma falácia – sem fim – até porque está colocada ao contrário, embora não deixe de parecer pertinente.
O cor. Jaime Neves não será santificado como Nuno Àlvares, pois não é nenhum santo e toda a gente sabe isso, mas tem nome feito e ganhou jús a um lugar na história militar e politico-militar de Portugal. O seu valor militar já foi reconhecido na sua promoção a coronel, na atribuição da Torre e Espada – a mais alta condecoração nacional – e na nomeação para o curso superior de comando e direcção – que dá acesso a oficial general – o que ele, na altura, declinou.
A promoção a oficial general – porque não a três estrelas? – posto que até agora tinha sido preservado de excrescencias revolucionárias, não lhe vai acrescentar nada e é algo ridículo depois de um longo periodo na reforma em que nada de significativo se passou.
É um presente envenenado e abre uma caixa de pandora!
Noutro âmbito parece pouco curial haver quem queira propor honras ou promoções quando as recusa para si. A não ser que esteja à espera também de uma recusa. Mas, nesse caso, é a própria proposta que não faz sentido.
Uma última consideração é mister fazer.
As grandes instituições nacionais, onde se incluem as FAs, não podem ter um comportamento idêntico ao dos actuais partidos políticos. Têm que ter (e têm) Princípios, Doutrina, Ética. Possuem um conjunto de valores que são o seu esteio e lhe balizam a existência. E têm que os praticar e não apenas enunciar.
Os chefes militares não devem contradizer-se em público, prometer e não cumprir, dizer hoje uma coisa e amanhã outra, querer algo e o seu contrário,etc.
Isto para dizer que o Exército, a Força Aérea e a Marinha, também têm que ter “verdades” oficiais e têm que as assumir. Por ex.: o que se passou em Timor em 1975?; qual foi o desempenho das forças militares aquando da invasão do Estado Português da Índia, pela União Indiana?; o que se passou, de facto, em Wiriamu?; a guerra contra subversiva que o país levou a cabo em África, entre 1961 e 1974, foi justa ou injusta?, etc.
Ora ir promover o cor. Jaime Neves é continuar o relativismo moral que tem sido apanágio do passado recente e continuar a resolver os erros de ontem com novos erros, que fatalmente irão gerar outros.
Afinal o maldito do PREC nunca mais acaba.


[1] PREC – periodo conturbadissimo da vida portuguesa definido no espaço temporal entre 11/03/1975 e 25/11/75

COMO SE ESCOLHEM MEMBROS DO GOVERNO EM PORTUGAL

05/06/09

           Eles (os responsáveis máximos), apresentam-se aparentemente calmos frente às câmaras. Dizem que está tudo bem e que as escolhas anunciadas foram as primeiras a ser contactadas e até únicas. É o manto diáfano da fantasia.
           A realidade é bem diferente. Querem ver um exemplo?
           Dia da tomada de posse dos Secretários de Estado de um Governo. Monsanto, Comando Operacional da Força Aérea. Manhãzinha. S. Exª o Ministro da Defesa Nacional (MDN) - e outros apêndices - estava de partida helitransportado para Viana do Castelo onde ia presidir a uma cerimónia nos estaleiros navais.
           A partida foi adiada por duas horas pois a azáfama do senhor ministro e de alguns dos seus directos assessores era mais que muita. No Clube de Oficiais e à vista de quem estava este grupo de homens, telemóvel em punho, gesticulava e falava continuamente. Estavam longe, porém, de serem formigas obreiras antes de assemelhavam a baratas tontas.
           A que se devia então tão inusitado transe? A isto: era preciso encontrar um Secretário de Estado para a Defesa, já que o anterior não encontrou forças para continuar ou foi tido por dispensável – como era o único da área que tinha cumprido o serviço militar, se calhar foi por isso…
           Estava-se a escassas horas de fazer desfilar os novos filhos d’algo pelas luzes das TV’s e faltavam caras para a fotografia!
           Seguiram-se os contactos desenfreados, os cruzamentos de informação; os pedidos de esclarecimento, o desvario das frases cruzadas: “agora não tenho tempo de falar com esse gajo”, “liga-me para sicrano”, etc. Até que se atracou a um porto. Teresa, Teresa, preciso que venhas trabalhar comigo, entendes? Ouvistes?
           E a Teresa lá anuiu, muito presumivelmente sem saber a quê, mas anuiu.
           Tudo isto – a síntese das frases não permite passar todo o colorido da coisa - se passou à vista dos presentes e de quem passava – incluindo a mulher da limpeza.
           Limpo o suor da testa, composta a gravata, alinhado o fato às riscas, pose (falsa) de comandante das tropas, lá embarcou o senhor ministro e comitiva para o Minho onde pregou mais uma “seca” nos pobres dos arrebanhados para a tal cerimónia. Ia contente, certamente, o senhor ministro, acabara de dar mais uma lição de eficácia a um tal de Lopes que dali a meio dia passaria de primeiro violino a chefe de orquestra onde ele era uma espécie de segundo maestro. Como o helicóptero é um local ruidoso e a tremideira é constante, deduz-se que o vício dos telemóveis terá amainado durante a viagem.
           Graças a Deus foram e vieram e não lhes aconteceu nada, foi um sucesso. Mas ao entrar no Palácio de Belém é que começou a crescer no cocuruto do senhor ministro um galo enorme. Afinal na sua ausência uma perigosa infiltração de forças alaranjadas tinha conseguido ocupar a tal secretaria de estado com um amigo diferente – certamente com um curriculum daqueles mesmo altamente, para o lugar - cujo nome já se perdeu na bruma dos tempos. A Teresa, doutora em suas habilitações é que, coitada, ficou impedida de se vir a tornar uma “comandanta”!
           Os chefes militares a quem os jornais atribuíram a sua anuência à escolha da senhora, uma verdadeira inverosimilhança! - devem ter ficado pesarosos e o resto das tropas idem. Para a defesa do país foi indiferente, pois não se vislumbra quem esteja preocupado com isso.
           Resta-nos, para terminar, cumprimentar a senhora pois os seus dotes e méritos devem ser tais e tantos que num ápice passou da defesa para a cultura. Afinal tudo está bem quando acaba em bem.
           Com tudo isto como é que os senhores políticos podem querer que os levem a sério ou os respeitem?

[1] Para não prejudicar eventualmente, as testemunhas do evento, o artigo saíu muito diferido no tempo

sábado, 9 de outubro de 2010

O TURISMO E NÓS PRÓPRIOS

22/03/10

             Uma anunciada 1ª mostra gastronómica do peixe do rio promovida pela autarquia do Alandroal levou-me – gulodice a quanto obrigas! – a visitar partes do Alentejo, umas mais profundas que outras.
            Ora aqui está uma boa iniciativa, pensei, para conservar e promover as tradições, gastronómicas e bons costumes, de toda uma região empobrecida e abandonada pelo Terreiro do Paço. Ou seja, a preservação da cultura que nos molda a idiossincrasia e nos individualiza (e une) como nação.
            Foi um primeiro passo, que apenas mobilizou uma meia dúzia de restaurantes em três localidades e uns quantos cartazes divulgaram. Há que alargar e coordenar com outros eventos, de modo a tecer uma teia de actividades sustentadas e com nexo, que possam valorizar a tão depauperada economia das regiões do interior, agregando-as ao litoral em vez de as empurrar para as regiões transfronteiriças espanholas.
Neste particular aparece como importante a promoção e correcta regulamentação da pesca, desportiva e artesanal, em rios e barragens (aquacultura  nestas últimas?) o que já não parece nada bem e dá uma dor de alma ver, é o estado de degradação em que se encontram grande parte (senão a maioria) das casas de todas as aldeias e vilas, algumas das quais ainda representam jóias da arquitectura e urbanismo rural. Isto para já não falar do grau de destruição, sujidade ou falta de conservação de monumentos nacionais ou imóveis de interesse público, de que se destacam castelos, fortalezas, palácios e igrejas.
            A lei tem que ser aperfeiçoada para obrigar os proprietários à conservação e correcto usufruto, arrendamento, etc., dos seus espaços e imóveis e à dirrimição de contendas de herdeiros, para que a paisagem do abandono, desleixo e destruição não prevaleça. Do mesmo modo há que apelar ao brio público para que as casas estejam rebocadas e pintadas.
No Alentejo, a maioria das casas é, até, caiada, método mais barato e mais simples de cuidar dos imóveis. O abandono dos campos (erro trágico!) parece que levou ao abandono de tudo, e as pessoas parecem satisfeitas, mansas e domesticadas, com os subsídios a que se habituaram… A constituição de pequenas empresas que se dedicassem à reparação e a pequenas obras de manutenção, parece-me um bom passo para dar a volta a tudo isto, ao passo que dava emprego a muita gente (desde que não contratassem apenas imigrantes!...).
            Se, junto com isto, plantassem árvores e ornamentassem as janelas e ruas com vasos e flores nos jardins, veriam como a vida lhes pareceria mais leve e bela.
            Exemplo do desconchavo patrimonial é Jurumenha, local de rara beleza natural; ponto estratégico que em tempos foi; defesa da fronteira e praça forte de relevância histórica no Portugal medievo e da época da Restauração, está reduzida a meia dúzia de casas e a uma enorme ruína, que é o termo mais correcto para designar o que outrora foi uma fortaleza altaneira. Que se há-de dizer mais?
           Outro exemplo é o Palácio dos Henriques e a Igreja e Jardim das Conchas, que lhe ficam fronteiros. Duas quase ruínas que ameaçam ruírem. A arquitectura e decoração da Igreja e Jardim das conchas é originalíssima e talvez única no País e quanto ao Palácio, que ainda mostra a sua imponência, foi só o local onde, em 1479, se assinou o muito relevante Tratado de Alcáçovas. Para se visitar é preciso ir pedir a chave ao posto de turismo…
            Passemos a Elvas. Para além das ameixas belíssimas, mas caras para a nossa depauperada bolsa, e dos atoalhados que continuam a fazer a delícia castelhana – uma pequena glória que a indústria espanhola não consegue ultrapassar – resta-nos a mesma degradação geral da urbe que encontramos nas pequenas vilas e aldeias e um monumental complexo de arquitectura militar.
            Se há alguma cidade em Portugal que se pode designar como uma cidade militar, é certamente Elvas. A geografia e a vontade dos homens assim o determinaram.
            Este conjunto singular e complexo de arquitectura militar é um património histórico de grande valor, nacional e internacional, que está sub aproveitadíssimo.
            Além de dever ser um local de “peregrinação” histórica dos portugueses, poderia estar preparado para a realização de colóquios internacionais, relacionados com a História Militar, deveria possuir um roteiro histórico/militar devidamente estruturado e com guias, complementado com museus militares a condizer. Os dois existentes,um à responsabilidade da autarquia (o forte de S.Luzia),outro no antigo quartel na cidade, à guarda do Exército – instituição nacional por excelência que está perfeitamente depauperada de meios! – ainda estão incipientes e carecem de muitas melhorias, que só um investimento substancial poderá permitir.
Enquanto isso não acontece, pequenas acções, tais como indicações correctas, arranjo de holofotes vandalizados e melhoria da loja, ajudariam. Estamos a falar do Forte de S. Luzia. É sempre agradável não pagar para entrar mas, hoje em dia, nada se faz sem dinheiro. A ponderar. Há centenas e centenas de oficiais e sargentos na reserva e reforma que poderiam ser muito úteis neste, como noutros campos. Mas como passámos a ser um país de gente zangada e ninguém se entende com ninguém, o prejuízo e o desperdício tem sido incomensurável.
            É no turismo porém, que este património de antanho – quando havia verdadeiras preocupações de Defesa e Segurança – deve ser aproveitado.
            Como o turismo é a primeira indústria nacional, ao contrário da Defesa que está no fundo das prioridades, aquele tem recursos e esta não. Por isso invistam alguns desses recursos na promoção de Elvas, até porque o retorno é certo. Não faltam edifícios que podem ser aproveitados como hotéis, pousadas e turismo de habitação; imaginem reconstituições históricas, feiras, etc.
            Deitem a mão ao Forte da Graça, uma das fortificações mais imponentes do mundo, que levou 30 anos a construir e está fechada, em degradação acelerada e à venda em hasta pública! Tenham ideias mas não sejam idiotas.
            Finalmente, estimulados pelo equinócio da primavera (21/3), fomos tentar ver o nascer do sol no mui antigo e sagrado local, dos Almendres, a 12 Km de Évora, onde existe o maior Cromeleque da Península Ibérica.
            À semelhança do que faziam povos antigos de há 10.000 anos, que enterraram e alinharam pedras de muitas toneladas em posições e ângulos específicos orientados com fenómenos celestes, com uma precisão que impressiona. Como impressiona, também, ouvir a muitos arqueólogos e historiadores,  tratar estes povos como ignorantes e bárbaros .....
            A expectativa saiu frustrada pois o nevoeiro não ajudou, mas ficou a certeza do mau aproveitamento turístico e cultural de todo o património megalítico existente no Alentejo, que é o mais rico de toda a Europa. De realçar, outrossim, a falta de segurança destes monumentos que estão ao abandono absoluto, sem nada nem ninguém que os proteja. Haja Deus!
            Assim somos e assim deixamos a vida correr, no antigo reino de Portugal.

O TGV E A DEFESA NACIONAL

20/06/09
Alfa Pendular, comboio rápido que nunca andou à velocidade máxima,
devido a limitações da linha que nunca foram resolvidas
“A perda de Portugal foi de puro sangue e por isso o ministro espanhol que não pense constantemente na reunião, ou não obedece à lei ou não sabe do seu ofício”.
José de Carvalhal y Lencastre
(ministro de Estado ao tempo do Rei Fernando IV, de Espanha)

            Pode parecer, pelo discurso político e pelo que vem publicado nos “media” que a frase deste antigo ministro espanhol, está ultrapassada pelo tempo. Mas não está.
            O TGV foi, finalmente, adiado, para depois das eleições. Melhor fariam se lhe colocassem um ponto final.
            Sem embargo, este adiamento não foi feito pelos melhores motivos nem pelos que deviam ser assumidos. Trata-se apenas de um expediente eleiçoeiro.
            As oposições não têm andado melhor. Desmultiplicam-se em declarações que se fundam na maioria dos casos na economia e nas finanças e sabe-se dos contorcionismos de que são capazes. Quando não dizem hoje o contrário do que disseram ontem.
            Ora as principais razões pelas quais se devem pautar as decisões no âmbito de uma obra destas, devem ser razões estratégicas, e não outras. Não quer com isto dizer que as questões económicas e financeiras não sejam importantes e sabe-se que no caso vertente o ónus financeiro é enorme e o retorno económico será nulo, quiçá negativo. Mas pode-se até, optar por aguentar determinados encargos se isso for tido como um fundamento político ou estratégico fundamental.
Assim deve-se sempre optar por uma decisão que contemple a opção estrategicamente mais segura e depois aquela que for economicamente mais rentável. Ora a decisão de construir o TGV em termos políticos e estratégicos favorece objectivamente o estado espanhol e nomeadamente a sua componente castelhana.
            Entra pelos olhos dentro que as vantagens económicas e de circulação de pessoas favorece os espanhóis pois são eles quem tem mais poder de penetração na nossa debilitada economia., cultura e tecido empresarial e financeiro. Tudo isto vai reforçar a implementação espanhola em Portugal e todos os seus “produtos” chegarão  cá em melhores condições de concorrência. Poder-se-á argumentar que também do lado português se poderá aproveitar as oportunidades, mas todos nós sabemos que saímos a perder neste contexto. Para a União Europeia tal é indiferente. Eles querem é amalgamar tudo!...
            Por outro lado, temos a questão fundamental do traçado da via. Esta questão é central nas relações “ferroviárias” com o estado vizinho desde meados do século XIX, tendo começado até, com uma discussão sobre a largura da via. Originalmente quando se fez a ligação com a Espanha a largura da via férrea não era a mesma já que em Lisboa se temeu que os espanhóis embarcassem uma divisão do exército num comboio e chagassem à capital portuguesa em poucas horas. Mas isso era quando o governo português ainda tinha preocupações de defesa ….
            De facto o que interessa a Portugal, em termos de caminho de ferro é atravessar a Espanha o mais rapidamente possível até chegar aos Pirinéus. À Espanha interessa exactamente o contrário e interessa-lhes sobretudo que as comunicações passem por Madrid, centro radial e geocêntrico da Península Ibérica. Tudo isto deu origem, ainda no século XIX a uma interessante polémica entre um capitão de infantaria e S. Majestade o Rei D. Pedro V,nas páginas da Revista Militar. Mas isso passava-se no século XIX, um século de decadência…
            A nossa falta de visão e, ou, cobardia política, vai ao ponto de beneficiar os eixos Lisboa-Madrid e Porto-Vigo(!), quando o interesse nacional devia centrar-se no percurso Lisboa - Porto  e Lisboa - Faro, o que em termos de custo/eficácia o “Alfa” e o “Intercidades” fazem muito melhor. E quanto a atravessar a Península que por camiões TIR ou por caminho de ferro, seria muito melhor apostar no transporte marítimo e, nalguns nichos, no transporte aéreo. Mas para isso era preciso que em Lisboa os políticos soubessem alguma coisa do seu ofício…
            Meus caros concidadãos, estas coisas são importantes.
            O Ronaldo ira para o Real Madrid, por seu lado e em rigor, não tem importância alguma.

domingo, 3 de outubro de 2010

O PM E OS PILOTOS MILITARES

12/07/10

Aeronave Marcel-Dassault Falcon 50
Com cerca de mês e meio de “decalage”, surgiu nos jornais uma “fuga de informação” que dava conta da eventual insatisfação e desconforto do senhor Primeiro Ministro (PM), relativamente à “recusa” da tripulação do Falcon 50, da FAP, em o transportar para Lisboa, após uma reunião em Bruxelas.
            Tal facto teria ocorrido no dia 7 de Maio, aquando da reunião da União Europeia, em que foi acordado o apoio financeiro à Grécia e criado um fundo de reserva de 750 Meuros à guarda do Banco Central Europeu (por curiosidade refere-se que esta reunião foi antecedida de uma outra, poucos dias antes em Dublin, do grupo “trilateral” e continuada por outra, a 6 de Junho, em Barcelona, do Grupo Bilderberg…).
            O caso deu-se por a reunião em que a comitiva portuguesa esteve presente, ter demorado mais do que o previsto e tal ter provocado que o tempo máximo de trabalho da tripulação ir ser ultrapassado.
            Sem querer entrar em pormenores, refiro que o tempo de serviço aéreo é calculado em termos diários, semanais, mensais e até semestrais e anuais, em função do tipo de aeronave que se voa; é definido, com nuances, entre o início de um voo e o seu término, e está devidamente legislado (na FA através do Regulamento do Serviço Aéreo e para os civis, através do Dec-Lei 139/04,de 3/7.). A seguir a um período de actividade aérea, segue-se obrigatoriamente um período de descanso, também ele regulamentado.
            Deve acrescentar-se que a legislação civil é mais restritiva que a militar e que ambas são naturalmente para cumprir, pois para além de uma questão de princípio, mexem com a segurança de voo. Na FA, por ser uma força militar, por maioria de razão.
            Para um completo esclarecimento do quadro, deve acrescentar-se, que a nível das empresas do Estado, o cumprimento da legislação é vigiado cuidadosamente pelos sindicatos, enquanto que na aviação que se move no âmbito do livre mercado, as empresas sentem a legislação como uma limitação que lhes tolhe a “flexibilidade” e os lucros, pelo que existem pressões amiúde, sobre as tripulações para “forçar” as restrições existentes.
            Por último, o comandante de bordo ou qualquer membro da tripulação pode colocar restrições ao seu desempenho caso não se sinta em condições psico-físicas para o exercício das suas funções, o que obviamente obrigará a uma cabal justificação do ocorrido.
            Finalmente, a nível da FA, havendo operações reais a decorrer em casos de emergência, crise ou guerra, o grau de risco e esforço poderá ser aumentado, a qual será da decisão da competente cadeia de comando. Em qualquer caso deve estar presente o “bom senso”, muito escorado na experiência, conhecimento e importância da missão.
            Ora à FA está cometida a missão, através da Esquadra 504, de transportar altas entidades do Estado.
            Porque é que existe esta missão?
           Pois, porque só a FA tem a capacidade e a flexibilidade de, no âmbito temporal e espacial, em apoiar este tipo de operação, já que a grande parte das missões são inopinadas e têm um tempo de duração incerto. Permite ainda um grau de segurança física maior. Além disso, exige-se às empresas civis um grau de eficiência elevado, que não é compatível com ter meios disponíveis para estas missões (além do seu elevado custo). Já assim não acontece com a FA que, sendo um ramo militar, a eficácia prefere, devendo ter sempre potencial disponível, para qualquer necessidade que surja.
            Ora tudo isto só se consegue com uma estrutura de comando e controle adequado e com aquilo a que se convencionou chamar de “condição militar”. De facto é esta característica que permite a disponibilidade de tempo e lugar e de um lote alargado de exigências e restrições individuais, que garantem o cumprimento de todas as missões em toda e qualquer circunstância.
            Isto é verdade para a FA (e para todos os restantes militares), mas não é verdade para os civis.
            Para além disso o pessoal da FA tem a missão de utilizar os seus meios como um sistema de armas integrado na defesa do espaço aéreo nacional e na cooperação com as forças de superfície (Exército e Armada), onde têm o dever de arriscar fazenda e vida. São o último instrumento para a sobrevivência do Estado e da Nação e representam um elo transcendental que mantém de pé essa entidade misteriosa que dá pelo nome de Pátria. Missão das mais insignes e importantes, portanto.
            Comparados com isto – e sem desprimor – os aviadores civis são apenas uma peça de um negócio, sem embargo da sua utilidade social e económica.
            Ora vai-se aos finalmente e aqueles que gozam de mais direitos e menos deveres (os civis) têm uma dignidade social mais elevada e ganham estupidamente mais (os que estão em empresas estatais) e menos estupidamente mais (os que estão na privada), do que aqueles que têm  menos direitos e mais deveres – os militares!
            E pode ser até, sr. PM, que os motoristas que foram recentemente reforçar o seu gabinete, ganhem mais, só de ajudas de custo, do que o capitão que o transportou a Bruxelas...
            Não foi seguramente por isto que o senhor  PM ficou em terra, mas pode um dia destes não ter sequer quem o transporte, pois no quadro de pilotos aviadores faltam cerca de 1/3 dos efectivos…
            E como tem sido timbre de todas as forças políticas porfiarem em descaracterizar e minarem os fundamentos da Condição Militar – que é o que permite manter a Instituição Militar de pé - podem acordar um dia com a impossibilidade de cumprirem missões ou com um gravíssimo problema “disciplinar”, no regaço.
            Umas notas finais:
            Parece ser de todo útil haver uma maior coordenação entre partes, para que acontecimentos como este, desapareçam ou sejam minimizados. Pode, por ex., estimar-se melhor a duração dos eventos e enviar tripulações reforçadas; pô-las a descansar atempadamente; posicioná-las ou rodar aeronaves (claro que tudo isto implica meios…),etc. Menos se compreende, que o PM  tenha regressado em voo comercial no dia seguinte de manhã e o Falcon também… Duas despesas.
            Por último, transportar altas individualidades implica cuidados adicionais, o que se iria dizer de uma tripulação que tivesse violado o período de descanso (ou outras regras) e ocorresse um acidente? Lembram-se do voo em que faleceu o ex-Presidente da Polónia?
            Fez bem o comandante da FA em defender os seus homens – não seria aliás de esperar outra coisa – e nem parece que o PM ficasse aborrecido com o sucedido, ao contrário do que alguns “media” – sabe-se lá com que intenção  - quiseram fazer crer.
            Mas se por acaso um dia ficar, tem boa solução: faça-se transportar numa companhia civil – o governo é, até, patrão de algumas.
            Verá como fica satisfeito num ápice.

PILOTOS MILITARES VS PILOTOS CIVIS OU COMO A FORÇA AÉREA NÃO CONSEGUE RETER OS SEUS AVIADORES

Maio de 2009

            Ser piloto civil é exercer uma actividade tecnicamente complexa, fisiologicamente exigente, economicamente relevante e socialmente útil. É uma profissão relativamente bem remunerada e em termos sociais muito bem aceite. Isto é, as pessoas em geral, têm em alta conta a profissão de piloto comercial, mesmo sem saberem muito bem os quês e os como de semelhante actividade e certamente sem saberem que, infelizmente, aos profissionais do ar nem sequer lhes ser exigida uma licenciatura, embora muitos a possuam.
            O comum do cidadão deve pensar que um seu semelhante que consegue meter-se dentro de uma máquina com asas cheio de “relógios” (agora écrans), manetes e botões e consegue levá-lo de um ponto para outro em qualquer parte do mundo deve ser uma espécie de super homem. Não é, mas não vem mal nenhum ao mundo que pensem assim, primeiro porque é bom para o nosso “ego” e depois porque só isso deve justificar que tanta gente entregue a sua vida e segurança nas mãos de semelhantes abencerragens.
            Ser piloto militar é igualmente uma actividade complexa. Direi que mais complexa, pois é necessário aprender a operar as aeronaves em termos tácticos e tirar partido delas como armas. O tipo de missões é muito mais variado e é necessário aprender a operar com forças aéreas estrangeiras e em apoio das forças de superfície (Exército e Marinha). Além disso o risco é maior, pois o envelope em que se opera é mais arriscado e exigente e porque se tem que treinar do mesmo modo que se opera em situação de guerra.
            Por todas estas razões as exigências fisiológicas são mais duras.
            Ser piloto militar não é porém uma actividade economicamente importante, a não ser indirectamente, através das mais valias que se podem obter através da indústria aeronáutica/armamentos, para quem as possua. Mas fazem isto: criam segurança, sem a qual nenhuma actividade económica se pode desenvolver; são elemento importante de recolha de informações necessárias a número alargado de organismos do Estado; promovem a vigilância do Ar, da Terra e do Mar, a investigação de recursos e providenciam as necessidades de busca e salvamento e outras missões de apoio cívico.
            E se mais não fazem é porque não lhes dão os meios e as ordens.
            A sua função é pois, também, socialmente útil  e ultrapassa em muito o simples transporte de passageiros e carga [1] praticado no meio civil. Mas apesar de assim ser a população em geral e os políticos em particular, continuam inacreditavelmente ignorantes do que fazem exactamente os pilotos militares, em todo o caso, a  Força Aérea. E isto quando são um elemento fundamental de soberania e instrumento essencial da Política externa do Estado Português.
            Em cima disto temos que dizer que um piloto militar é muito pior remunerado do que um piloto civil e está sujeito à condição militar que, na prática, se traduz em mais deveres e menos direitos.
            Um piloto civil pode mudar de companhia e até de país, quando as suas qualificações e oportunidades o permitem. A sua actividade é regulada pelo mercado e por vezes pelo capitalismo selvagem. Quem se sindicaliza pode usufruir da respectiva protecção. É um ser individual que conhece mal todos os restantes trabalhadores. Trabalha em equipa dentro (e apenas), da sua tripulação. Existe pouco sentido gregário, e espírito de empresa. Esta é apenas local onde se ganha dinheiro. Onde se está.
            A Força Aérea (FA) é em grande parte a antítese de tudo isto. Na FA serve-se. É-se. (até ver!) O piloto militar só pode servir na (sua) FA e é contemplado amiúde com deslocações frequentes que têm em conta as suas aptidões e desejos mas, sobretudo, as necessidades da organização.
            O piloto militar vive em grupo e trabalha sempre em comum com muitos outros que se complementam. O espírito de corpo e a camaradagem são fundamentais. O piloto civil realiza o seu turno e vai para casa, o piloto militar tem mais mil coisas para tratar.
            O piloto civil realiza tarefas; o piloto militar cumpre missões.
            Ambos pertencem aos dois únicos grupos profissionais em Portugal (pilotos e militares), que verdadeiramente são avaliados anualmente.
            Se a sociedade civil se aproveita de tudo isto a seu favor, enfim faz o que costuma no sentido de aproveitar as oportunidades do mercado e da legislação. Que o Estado trate tão diferentemente os seus servidores civis (caso da TAP por exemplo) e militares é que já não parece tão linear e apropriado. A criação recente da Empresa de Meios Aéreos veio até, agravar as injustiças.
            Enfim muito mais haveria a referir. Em corolário do que temos vindo a dizer, cada vez há mais candidatos a piloto civil e a maioria deles nunca pensou em ser militar nem pode concorrer a não ser até uma idade muito baixa [2] ao passo que a FA, apesar de não ter dificuldades de recrutamento (as necessidades são também pequenas), não consegue reter os seus oficiais que aliás, podem empregar-se no mercado civil até aos 65 anos!
            A situação é cíclica, nunca foi verdadeiramente estudada, nunca houve interesse político em resolvê-la (apesar de algumas piedosas declarações quanto pouco sentidas), e tem custos enormes para a Nação, e não estamos apenas, nem sobretudo, a falar de dinheiro.
            Até o recente recurso a contratados tem dado maior resultado, devido em grande parte à incompetência legislativa. [3]
            Incompreensivelmente as sucessivas chefias  da Força Aérea, nunca conseguiram estabelecer critérios justos e equilibrados ao longos das últimas três décadas (!), mudando frequentemente de ideias, o que tem provocado efeitos devastadores nas fileiras.
            Por outro lado nunca tiveram o saber e habilidade para convencerem os outros Ramos e o Poder político para a necessidade de se encontrar uma solução global para o problema e que não passa apenas por pagar melhor, mas sobretudo por um conjunto de actuações em várias áreas, onde a dignificação da condição militar não será a mais dispicienda.
            Mas, perguntarão os leitores, se em Portugal não se consegue resolver um único problema que exista (e são tantos!), porque é que se havia de resolver este?


[1] Também alguns outros de menor expressão como fotografia aérea, monda agrícola ou combate a incêndios.
[2] Para a Academia Militar da FA somente até aos 21 anos.
[3] O que é que lhe haviámos de chamar?