quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A POLÍTICA AGRÍCOLA COMUM* E A DEFESA NACIONAL

Publicado no jornal “O Dia” de 10/3/93 com o pseudónimo Adamastor

“A principal indústria de um país é a agricultura”
António Augusto Ferreira 1

Em artigo anterior2 , defendemos que as três instituições fundamentais que existem em Portugal, a Universidade, a Igreja e as Forças Armadas, estão a ficar de tal modo enfraquecidas que podem pôr em risco a sobrevivência nacional.
            Em complemento, vamos hoje discorrer sobre a gravíssima crise em que mergulhou a agricultura portuguesa.
            Como se sabe, as actividades agrícolas estão na origem da sedentarização dos povos e na posterior estruturação e desenvolvimento das comunidades.
            A existência de alimentos é uma condição básica de sobrevivência para qualquer indivíduo/sociedade e tal consegue-se, sobretudo através dos produtos da terra, complementados com a criação pecuária e a pesca. A existência de excedentes fomenta as trocas aumentando o comércio e os bens ao dispor. Cresce, deste modo, a riqueza, o que permite investimentos noutras áreas, e, assim sucessivamente.
            Aumentando a população (por via de uma boa alimentação), os misteres diferenciam-se, porque já nem todos precisam de trabalhar o campo e porque as necessidades materiais, culturais e espirituais aumentam, permitindo e exigindo uma maior especialização…
            Bom, tudo isto é sabido, como é sabido também, que desde principalmente, o século XVI, Portugal não consegue ser auto-suficiente em matéria alimentar, nomeadamente nos cereais. Sem embargo, por melhores ou piores que fossem as políticas seguidas sempre houve a intenção e a preocupação de produzir mais e melhor. Agora o que é inédito e inaudito é que se fomente (pagando) a não produção, o abandono das terras e se atire cerca de 20% da população para a voragem canibal das multinacionais alimentares e respectivos intermediários, sem outra defesa que não seja o subsídio – outra despesa. Pois é efectivamente isto que está a acontecer em Portugal, indo já ter efeitos em 1993, em termos de desemprego, falta de escoamento de produtos, baixas de produção, aumento do custo dos factores de produção, confusão e corrupção na distribuição de créditos e subsídios, agitação social, etc.
            Reparem, o raciocínio é simples: Imaginem vários peixes de diferentes tamanhos que viviam em aquários separados mas cujas paredes se tocavam. O que defendia os peixes pequenos dos grandes eram as paredes dos aquários (fronteiras). A certa altura começaram a partir as paredes dos aquários, sem que dessem tempo aos peixes mais pequenos que crescessem.
Agora adivinhem o que é que os peixes grandes vão fazer aos pequenos!? É isso, comem-nos, e nós estamos exactamente nessa posição (dos peixes pequenos).
            A PAC é uma aberração. É antieconómica e é antinatural. E (aparentemente) estúpida. Protege, sobretudo, os circuitos comerciais internacionais (e vamos ver que guerra é que isto vai dar com os EUA e Canadá, dentro e fora do GATT).
            Haverá, assim, tendência para que passe a existir uma multinacional “alemã” da beterraba açucareira, uma “inglesa” para a ovelha; uma “francesa” para o vinho; uma “espanhola” para o azeite, e assim por diante. Em última análise toda a parte produtiva e comercial do que fazemos sairá das nossas mãos e passará para entidades supra ou transnacionais, cinzentas, estranhas e às vezes difíceis de identificar, cujas únicas baias são as regras emitidas pelos tecnocratas de Bruxelas, após luta feroz entre interesses e “lobbies”. Quando as coisas correrem mal quem será o responsável? A quem se poderá pedir contas?
            Por outro lado, e por via dos acordos comunitários estamos impedidos de procurar fornecedores ou mercados onde mais nos interesse, caducando naturalmente qualquer acordo bilateral que pudéssemos ter.
            Enfim, a situação, a prazo, será tão ou mais grave do que a monarquia dual imposta por Filipe I, em Tomar, no ano da graça de 1581.
            Parece-nos ainda inadmissível que num mundo em que morrem milhares de pessoas de fome todos os dias, em que cerca de um bilião de seres humanos vivem no limiar da sobrevivência, se destruam alimentos e não se aumente a produção de quem o pode fazer. Mesmo em Portugal, é chocante ver estragar comida, não apanhar a fruta das árvores, entornar o vinho nas ruas, etc., com tanta gente a passar mal e os preços sempre a subirem nos mercados.
            Que diabo, ofereçam ao menos às Misericórdias ou, se forem menos amigos do género humano, dêem ao Jardim Zoológico … Mas, o mais grave de tudo, parece-nos, situa-se a nível do psicológico.
            Os agricultores são o âmago da Pátria, a força telúrica da Nação, que emana da terra, uma reserva moral (e material) do País. O homem da terra está intimamente ligado à natureza e às suas leis, mantendo com ela uma relação de equilíbrio estável e intuitivo, que transporta para a família e para a sociedade. Ora pedir a um operário que não produza tantas rodas dentadas não é o mesmo que pedir a um agricultor que deixe morrer as suas árvores de fruto. O operário tem alternativas, ou vai de férias. Quiçá ficará grato. Mas, o agricultor? Vai para o café da aldeia carpir mágoas? E, oh almas, não vêem que quando as árvores morrerem é também um pouco do agricultor que morre também? Não percebem que a actividade agrícola está ligada à alma do agricultor e que o equilíbrio atrás mencionado pode ser rompido?
            Infelizmente a impressão que temos é que a maioria de quem anda a negociar e a decidir sobre estes assuntos não percebe, não quer perceber e terá até raiva de quem perceba destas coisas. São uns rapazes armados em tecnocratas do “jet set”, de computador debaixo do braço, sempre ávidos a transformar ecus em escudos e vice-versa. Mas, Deus do Céu, que outras qualificações terão para negociar estas questões, que perceberão das motivações das pessoas a quem deveriam defender os interesses e das implicações que das decisões advirão para os interesses nacionais?
            A questão dos subsídios, já falada, está completamente inquinada. Por várias razões. A primeira sendo a de não se saber o que é que se quer fazer em termos agrícolas. É preciso ter um plano agrícola, silvícola, pecuário, etc., com objectivos a atingir e depois fazer os investimentos em conformidade. As ideias neste campo são as mais diversas e andam sempre a mudar. Ora despejar dinheiro num cesto destes é ter a garantia, à partida, de que a maioria dele se evaporará sem benefícios visíveis. Em segundo lugar, é preciso ter uma política de subsídios. Tem que se saber que tipo de subsídios existem e quais as condições em que podem ser concedidos. Numa palavra é necessário que as regras do jogo sejam claras.
            Além disso, é vital dá-las a conhecer. Tão mais vital, em virtude da maioria dos agricultores portugueses ser idosa e possuir um grau de cultura muito baixo. Não será fácil proceder a este esclarecimento (como fazer face às restantes coisas), quando a maior parte dos funcionários do Ministério da Agricultura está em Lisboa …
            Em terceiro lugar, é importante que a concessão de subsídios seja fiscalizada sob pena de nos atolarmos num pantanal de corrupção e injustiça. Isto é: nos subsídios malparados!
            Creio bem, que é já neste estádio que nos encontramos. Desenvolveu-se, entretanto, uma “fina flor de chicos espertos” que passaram de “agricultores” para aquilo a que poderemos chamar de “gestores de subsídios”. Acontece de tudo: luvas entre quem empresta e quem recebe; favores; empresas fantasmas; financiamento de produtos que nada têm a ver com as campanhas de momento, falências fraudulentas, etc., etc..
            Enfim, muito subsídio para o Mercedes e pouco para a vaca!
            No meio de tudo isto, uns poucos enriquecem e a maioria dos agricultores está no limiar da sobrevivência, atolados em dívidas. E sem saber o que fazer.
            Uma palavra mais sobre os subsídios. Não se deve, quanto a nós, criar o reflexo condicionado da pedinchice. Isto é: se chove muito, pede-se subsídio; se não chove, pede-se subsídio; se os preços caem, pede-se subsídio; se não se escoam os produtos, pede-se subsídio; e tudo, de preferência, a fundo perdido. E perguntamos nós, quando a colheita é boa, alguém devolve algo? E os seguros de colheita servem para quê? E que tal ensinar os “empresários” agrícolas a fazerem uma boa gestão dos seus meios?
            Uma coisa é certa, faça sol, chuva ou vento, produza-se muito ou pouco, no dia seguinte as coisas estão mais caras no mercado!
            É evidente que tem que haver subsídios, mas haja peso e medida. E mão forte para quem burlar.
            Em síntese, o subsídio deve servir para corrigir políticas, formar técnicos, fazer face a calamidades extraordinárias, reconverter culturas, apoiar experiências inovadoras, apoiar a estabilização de preços, etc.
            As contas, porém, devem ser tornadas públicas, no fim do ano. Neste particular seria bastante útil que se soubesse a distribuição a que foram sujeitos os cerca de 1.300 milhões de contos que entraram no País desde a sua entrada na CEE.
            Do que já foi dito extraem-se muitas consequências negativas em termos de defesa nacional. Uma primeira constatação, contudo, merece ser dita desde já: é que nos parece que nada do que se tem jizado em termos de política agrícola (como de resto nas outras), teve em conta qualquer preocupação em termos dessa mesma defesa.
            Muitos aspectos merecem a nossa atenção: a cidade está cada vez mais afastada do campo, o litoral do interior. Há zonas perigosamente despovoadas e desertificadas: por via da crise agrícola pode aumentar a tensão social, a agitação e diminuir a solidariedade nacional. Estes aspectos necessitam de rápido tratamento sob pena do País ficar algo mutilado e crescerem tendências regionalistas e centrífugas e de ligação a regiões adjacentes espanholas.
            Em termos de defesa nacional (e em termos macroeconómicos também), é perigoso que o País não produza sequer 50 por cento do que come. Agrava esta situação o facto da produção das restantes parcelas da economia nacional não chegarem para cobrir este défice.
            Ficamos, assim, dependentes do exterior. E do que Bruxelas nos quiser vender e comprar (o que acontecerá quando houver quebras de produção?); torna-se muito mais difícil constituir reservas estratégicas para qualquer emergência, crise ou guerra. Uma má política agrícola e silvícola, degrada o solo, a gestão da água disponível desertifica. Suponham, por absurdo, que só somos autorizados a plantar eucaliptos?!
            Mas o mais grave em termos de defesa nacional, relativamente à PAC é que nos toma, por um lado completamente dependentes de outros países e sobretudo de Bruxelas 3 e por outro, vai-nos reduzir a agricultura a franjas de pequenas produções ou obrigam-nos a produzir coisas que mais ninguém quer produzir. Só conseguiremos evitar isto, ser produzirmos mais barato, e melhor que os outros. Gostaria de desafiar as autoridades competentes a explicarem como é que isto estará ao nosso alcance. Sem embargo, tudo o que nós tivermos de bom, terá tendência a ser comprado pró quem tem posses saindo das nossas mãos, não só os bens como a mais valia que os mesmos podiam prover. Numa palavra, ficaremos como estava D. João II quando subiu ao trono: seu pai tinha-lhe feito senhor dos caminhos e estradas do reino e pouco mais…4
            A concluir o quadro, é preciso ter em conta, que tudo se faz para manter a população desinformada sobre estes assuntos.
            Parece-nos, assim, importante, que se estude e debata as implicações das opções políticas que são tomadas a esmo, sempre com grande optimismo, sempre na mira dos milhões fáceis (que hão-de, fatalmente, ser pagos com juros), na mira de sinecuras, mas sem cuidar bem dos verdadeiros interesses nacionais. Atitude esta, que a continuar levará à conclusão – legítima – que os citados interesses estão bem longe das preocupações daqueles que, por dever, os deviam ter em preocupação primeira.
            Estes assuntos têm que ter um tratamento de Estado. Não podem ser conduzidos por mercenários da política, desconhecedores do país real e dos seus interesses permanentes e profundos; que renegam (quando conhecem) a História Pátria e têm do funcionamento do mundo uma ideia, no mínimo, nebulosa.
            Todavia, manejam muito bem a máquina de calcular e são peritos em servir os interesses de momento que lhes permitam manter o exercício do poder … pelo poder.
            Caros compatriotas, cuidado se um dia estes senhores chegarem à conclusão que é muito caro manter Portugal como país independente, naturalmente, vendem-no.


* PAC, reformulada em 1992, pela Comunidade Europeia (CE).
[1] Meu pai
[2] “Portugal, o Princípio do Fim”, “O Dia” de 27de Setembro de 1992.
[3] Daí a PAC ser estúpida, apenas aparentemente.
[4] Só que, nessa altura, as terras estavam na mão dos nobres, que, por sinal, eram portugueses.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O PROGRAMA DE ESTABILIDADE E CRESCIMENTO (PEC), BAH!...

Edificio da Assembleia Nacional
A menina dos olhos da comunicação social destes dias (vai passar depressa) tem sido o PEC, bah!...

O que é o PEC? Pois é um plano de austeridade para a governação que o governo se viu obrigado a apresentar às entidades da União Europeia, em Bruxelas, e por via disso – se calhar só por causa disso – também aos portugueses. E porquê? Pois, porque o défice das contas públicas ir já, não se sabe ao certo quanto, mas seguramente acima dos 9% e aquela entidade internacionalista indefinida que nos tutela – sem que os cidadãos portugueses risquem coisa alguma – quer obrigar a que se mantenha abaixo dos 3%, já em 2013.

Correu muita tinta, esgrimiram-se argumentos pró e contra, gastou-se saliva. Faltou em entusiasmo o que sobrou em desencanto. No fundo ninguém acredita que o anunciado resulte em sucesso. Veremos como a resignação suplantará a contestação.

Ao fim e ao cabo qualquer coisa que se faça vai tornar a generalidade das pessoas mais pobres e diminuirá as capacidades de Portugal, no futuro.

Não pretendemos analisar nem discutir as medidas, até porque não faz sentido estabelecer estratégias sem definir políticas. O que queremos fazer realçar é a ideia de que nada poderá bater certo e gerar elan na população, enquanto três coisas não forem feitas pelo poder político/órgãos de soberania. São elas:

Assumir a irresponsabilidade da governação, os erros estratégicos estrondosos, a derrapagem constante para o politicamente correcto e a demagogia infrene do discurso político, das últimas décadas. E sobretudo o péssimo comportamento dos partidos.

E isto é tão mais importante, quando resulta muito mais de ignorância atrevida, incompetência, luta pelo poder e muito pouca recta intenção, do que de decisões tomadas de boa mente e baseadas em estudos sérios, que se vieram a verificar estar errados.

Estas últimas razões são desculpáveis, as outras não são.

Em segundo lugar, a classe política e os órgãos de soberania têm que fazer uma declaração séria e formal de que passarão a dizer a verdade, só a verdade e nada mais do que a verdade. É do conhecimento geral (ou pelo menos de quem tem um conhecimento mínimo da natureza humana), que a principal razão pela qual os políticos mentem – ou eufemisticamente, dizem “inverdades” – é a de que o público gosta que lhe mintam e só aceitam a verdade em tempos de “catástrofe”.

Ora os políticos não podem, nem devem, serem encarados como a generalidade do público, têm o dever de pautar a sua existência por normas elevadas de ética e tentar puxar a sociedade para “cima”.

Finalmente, têm de dar o exemplo.

E dar o exemplo, neste caso particular, começa por reduzir os próprios salários e, ou, regalias; reduzir drasticamente as despesas da Presidência da República (mais cara que a instituição monárquica espanhola, por ex.); da AR e dos parlamentos das Regiões Autónomas, que devem julgar que vivem nalgum regime faraónico (só para a AR e para 2010, estão orçamentados mais de 191 milhões de euros!); idem para os gabinetes ministeriais e para o dinheiro destribuido aos partidos através do orçamento do Estado; acabar com a parafernália de assessores, “entidades reguladoras”; “altas autoridades”; “observatórios”; empresas municipais; fundações subsidiadas pelo Estado e estudos de consultadoria a esmo, cuja principal função é dar emprego (tacho) e dinheiro a ganhar, a amigos e correligionários e acabar-se com o escândalo e o insulto, que representam os salários e mordomias usufruídas pelos administradores/gestores das empresas públicas, algumas das quais acumulam milhões e milhões de prejuízos anualmente. A lista está longe do fim, mas creio que já explicitei o ponto.

Esta gente tem literalmente “saqueado” a riqueza da Nação e em vez de serem respeitados por servirem a sociedade que os elegeu, merecem antes o epíteto de “devoristas” da coisa pública! A falta de vergonha é imensa e corre paredes meias com o topete que têm em passar o onús da crise para cima do cidadão comum. E falam, falam, falam, bah...

Seria útil –também e por ex. - tornar-se público qual o ouro (e divisas) que existia nos cofres do Banco de Portugal (cujos gestores são mais bem pagos que os seus congéneres americanos), em 1974 e o que existe agora, explicitando-se o que se passou entretanto...

Enquanto a classe política não tiver a humildade e a ombridade de assumir tudo isto não terá credibilidade alguma para avançar seja com que PEC fôr, bah!....

E, até lá, não a respeitarei, não a levarei a sério e não colaborarei!

O MUNDIAL DE FUTEBOL E AS MISSÕES MILITARES NO EXTERIOR

05/06/2010

A Selecção Nacional de futebol de 11, começa a 5 de Junho uma missão no exterior: vai participar no Campeonato Mundial da modalidade que se realiza na República da África do Sul (RAS); e tem um objectivo que é a de defrontar e, se possível, vencer as equipas que lhe calharem em sorte, até ao derradeiro jogo final. Em qualquer dos casos jogar bem, esforçar-se e cumprir os deveres associados.

As Forças Armadas Portuguesas (Fas) e a GNR têm, neste momento, várias unidades suas destacadas em diferentes teatros de operações com perigosidade variável, a saber: cerca de 200 homens no Afeganistão; 300 no Kosovo; 12 na Bósnia; 130 no Líbano, cerca de 40 homens a operar no Corno de África e 120 em Timor.

Em cooperação técnico militar nos PALOPs, existirão uns 30 e outros 40 estão distribuídos por diferentes quartéis-generais. Há cerca de 20 anos que assim é, tendo já sido mobilizados cerca de 30000 homens para mais de 30 países diferentes. A sua missão é o de participarem em missões humanitárias, de paz e de imposição de paz, no âmbito das organizações ou alianças de que Portugal faz parte. Neste momento o Afeganistão configura um verdadeiro teatro de guerra.

Vejamos alguns aspectos que ilustram o modo como os órgãos do Estado, os “media” e a população em geral, encara estas duas realidades.

A preparação para o campeonato de futebol, que é apenas uma competição desportiva de carácter lúdico e que está confinada a um período curto de espaço e tempo, desenvolve-se em ambiente festivo e com uma visibilidade mediática que raia o estupidificante.

É um verdadeiro massacre visual, auditivo e em papel, que cai sobre o cidadão que, aparentemente, gosta. Pelo menos esta é a desculpa recorrente dos órgãos de comunicação social para fazerem o que fazem.

As condições dos eleitos que constituem a “caravana” é rodeada de todos os luxos que fazem os atletas e técnicos parecerem uns nababos, já para não falar nos vencimentos algo pornográficos que auferem, não havendo “crise” que os refreie. O seleccionador está, ao que corre, em sexto de todos as mais bem pagos que participam e aos jogadores, só por estarem “deslocados” na Covilhã, num meio circo meio estágio, usufruem a modesta quantia de 800 euros/dia, só de ajudas de custo, quando ainda por cima não têm que despender um cêntimo…

Os jogadores, que cada vez menos configuram uma selecção nacional – deram em naturalizar uns quantos estrangeiros à pressa – são rodeados de todas as atenções. A participação no campeonato não envolve quaisquer riscos, a não ser aqueles decorrentes de lesões ou de uma falta mais dura, além de uma ou outra pergunta mais incómoda de um jornalista ou de uns quantos assobios, na volta, derivados de uma eventual má prestação.

A entidade organizadora do evento é a Federação Portuguesa de futebol, que se move num meio cravejado de claques e toda a sorte de desvergonhas, impróprias de olhares de menores de 70 anos.

Quando chega a hora da partida, há foguetes, bandas, bandeiras, comezainas, declarações furiosas de optimismo e fezádas de vitória. Vá lá, à falta de boas notícias e de nunca mais sair o totoloto, sempre é uma maneira do pessoal ter uns momentos de alegria. Percebe-se. Alguns até aprendem a cantar o hino que de outro modo não saberiam e inventam usos inusitados para a bandeira nacional, que o olhar complacente e às vezes embevecido, dos agentes de autoridade consente.

Os poderes públicos ao verem tão patrióticos propósitos e desbragado entusiasmo, cavalgam a onda, e não raras vezes ultrapassam, pela direita alta ou pela esquerda baixa, o entusiasmo popular.

Meio mundo tenta explorar as oportunidades de negócio que o evento proporciona e milhares de pessoas compram bilhete e tiram férias, sabe-se lá com que sacrifícios.

*****
Vejamos agora o que se passa com as missões militares no exterior.

Estas missões são definidas ao mais alto nível do Estado e servem, supostamente, para defender os interesses globais desse mesmo estado e do país. São pois, altos desígnios que estão em jogo, não um simples campeonato desportivo. Estes desígnios não são a “feijões”. Envolvem somas financeiras elevadas e um conjunto complexo de meios e exige uma selecção, preparação e treino muito apurados, de meios humanos. Finalmente, estas missões envolvem riscos sérios que, não poucas vezes, causam ferimentos graves e a própria morte, nos intervenientes.

Ora o que acontece?

Normalmente, e ao contrário dos campeonatos de futebol cujo calendário se sabe com muita antecipação, as missões militares são decididas de um momento para o outro – o que há partida exige uma estrutura que se compadeça com uma coisa destas; vai-se a ver e falta normalmente tudo o que é preciso, pois os meios ou não estão previstos na Lei de Programação Militar e, ou, são postergados continuamente; a seguir corre-se a comprar por ajuste directo, o que sai mais caro e nem sempre se consegue. Por várias vezes o governo português teve já, que pedir material emprestado a nações aliadas…

Sobre o que se passa, pouca gente fala. Os orgãos de comunicação social (OCS), habituados a toda a sorte de cusquices, sentem uma verdadeira azia quando se trata de reportar o que se passa. Uma ou outra notícia fugaz, de um treino; uma reportagem de um enviado especial quando o rei faz anos e umas imagens de choros e abraços nas partidas e chegadas.

O comportamento dos responsáveis do Estado também não é melhor: quando não primam pela ausência, aparecem embaraçados, distantes, conformados com uma maçada. Falta-lhes convicção e autenticidade. Ou é isso que reflectem. Dizem umas palavras de circunstância e, logo a seguir, vão por detrás e zás, mais umas facadas no orçamento, estrutura, meios, etc., das FAs.

Quando morre um militar tudo se altera: passa-se do 8 para o 80. Os OCS despejam pipas de noticias, massacrando a família e amigos da vítima; descobrindo imensas coisas que criticar, etc.. Os representantes do Estado estão presentes ou fazem-se representar num esforço desproporcionado ao evento, mas sempre rezando para que o ocorrido seja esquecido rapidamente. O povo em geral, anestesiado por catadupas de informação e desinformação, encolhe os ombros e sussurra quanto muito um “coitado teve azar”. E alguns rematam, dizendo “foi para lá porque quis…”.

Ou seja a acção destes homens que abnegadamente servem o seu país, ganham mal (relativamente), estão longe da família em ambiente hostil e perigoso, sofrendo as inclemencias do clima e o “stress” do perigo e que, calados e humildes, cumprem as suas missões sem queixumes - mesmo quando o seu equipamento não é o adequado - não têm qualquer tipo de reconhecimento nem visibilidade. E se os compararmos aos 20 minutos que uma qualquer estação televisiva dedica às ementas, aos quartos e às massagens dos jogadores da bola, estaremos até a ofendê-los.

Quem prepara estes homens e é responsável por os manter operacionais e com moral elevado é a Instituição Militar (IM). A IM também já teve os seus momentos maus, mas é uma instituição nacional, séria, cuja história se confunde com a nacionalidade e sem a qual Portugal nunca teria existido nem se manteria.

O mundo das FAs não é propriamente o mundo do futebol e os generais e almirantes não se parecem nada com os dirigentes dos clubes. Ou parecem? Agora meditem no tratamento que goza a F.P.F. comparado com o Exército, a FA ou a Armada!

Acreditem que gostaria que a nossa selecção de futebol ganhasse a taça. Já ficaria contente se tivesse uma boa prestação.

Agora aquilo que de facto me satisfaria, era que na nossa terra houvesse o sentido das proporções, da justiça relativa e que não se andasse a matar o bom senso diariamente.

Porque, até ver, ainda ninguém morreu de ridículo.

sábado, 11 de setembro de 2010

O REI DE ESPANHA VISITOU A MADEIRA

05/08/09

O Rei D. Juan Carlos, na Madeira a ser entronizado confrade do Vinho da Madeira
Sua Muito Católica Majestade, o Rei D. Juan Carlos visitou o Arquipélago da Madeira, lacuna agora colmatada, dos seus tempos de juventude em Portugal e dos seus posteriores afazeres de Estado.

Juanito, para os amigos, mostra-se sempre simpático para com Portugal e os portugueses – e também não tem razão nenhuma para não o ser – fala português, uma coisa quase impensável para um espanhol e sobretudo num castelhano, e pensamos que tem ganho jus à consideração geral como homem e como estadista. Excedeu até as expectativas quando mandou calar aquele senhor que dá pelo nome de Chávez.

Por isso não há razão nenhuma de ordem pessoal para que o monarca de cerca de três quartos da antiga Hispânia não seja bem recebido no antigo reino de Portugal e dos Algarves. Quando, porém, as questões de Estado se intrometem nas visitas oficiais e nos passeios o caso muda de figura. E quando fôr caso disso os nossos representantes têm que pôr a coluna erecta, levantar o queixo, olhá-lo nos olhos e dizer-lhe o que for de justiça.

Durante a visita à Madeira decorreu o aniversário da banda de música de Câmara de Lobos, onde actuou a banda local e… a filarmónica de Olivenza (com “z”). Este evento foi promovido pela Secretaria de Estado Regional dos Assuntos Culturais.

Ora tal facto, à luz do diferendo que existe desde 1801/7 relativamente à ocupação ilegal daquela antiga e portuguesíssima vila – onde os espanhóis de resto, não têm razão alguma – só pode ser considerado uma provocação, ou uma distracção de mau gosto.

Aliás, de Espanha poderia ter vindo uma banda de 30000 localidades diferentes, mas escolheu-se a de Olivença. Não foi certamente por acaso. Moncloa sabe do seu ofício e é pena é que do lado português andem todos aparentemente a dormir na forma e ninguém faça o trabalho de casa.

Vejamos: a questão de Olivença é sistematicamente ignorada em todas as cimeiras luso-espanholas (e não ibéricas, um erro elementar!) que se realizam todos os seis meses - a próxima vai ser em Elvas. Mas curiosamente o primeiro ministro Zapatero escreveu uma carta à direcção dos Amigos de Olivença (GAO) – patriótica associação constituída em 1938, e que desde então luta denodadamente pelo retorno de Olivença à sua Pátria – exortava o GAO “a participar positivamente na resolução do assunto1.

Mais tarde constituiu-se em Olivença o fórum “Além Guadiana” de iniciativa local para promover actividades de cariz cultural. Mas como se mostraram, de um modo geral favoráveis a Portugal, tal não terá agradado às autoridades espanholas, que logo se moveram contra aquelas “irreverências”.

No passado dia 11 de Julho, deram-se até ao desplante de inaugurar um busto dessa figura sinistra que foi Manuel Godoy – principal carrasco da Olivença portuguesa – numa das salas da Torre de Menagem do Castelo daquela vila, mandado construir por … D. Dinis.

Do lado de cá da raia, vários autarcas de municípios vizinhos, continuam a fazer e a dizer uma série de disparates, pois não há maneira de entenderem que se têm que desenvolver juntando-se à costa portuguesa, e não ao lado de lá da fronteira. É que no fim de serem chupados, os caramelos espanhóis, deixam sempre uma grande amargo de boca...

Ora na Madeira a coisa fia ainda mais fino: os nossos “hermanos” – manda a boa higiene e os bons costumes que os irmãos quando crescidos, devem viver em casas separadas – ainda alimentam reivindicações espúrias sobre as ilhas Selvagens e não devem gostar nada de actos de soberania portuguesa, como foi a recente visita de Jaime Gama, em Maio deste ano, enquanto presidente da Assembleia da República, àquele pedaço de território de grande importância estratégica.

E em tudo o que os espanhóis façam ou intentem, nós devemos desconfiar e é lamentável que os portugueses passassem a esquecer rapidamente os seus “segredos de família” e a andar com as “guardas” em baixo.

A banda de Olivença permaneceu quatro dias no Arquipélago e deu dois concertos, juntamente com a “Banda Recreio Camponês” de Câmara de Lobos: só fazia sentido recebê-la não como espanhola mas como indo de território português… Mas tudo passou despercebido entre autoridades, população e meios de comunicação social.

Curiosamente, ou não, lá apareceu mais uma sondagem cretina, feita pela Universidade de Salamanca e publicitada pelo “El Pais” (tido como próximo do PSOE), em que se afirma que percentagens elevadas de portugueses e espanhóis pretendem a (maldita da) União Ibérica.

E houve até um conhecido banqueiro português que veio afirmar a necessidade de “amalgamar” tudo o mais possível. Já não chegavam os grotescos Saramago e Mário Lino, se auto proclamarem traidores – ao dizerem-se iberistas

O segundo sendo ministro, continuou no governo; ao primeiro ofereceu-se-lhe uma fundação, paga com dinheiros públicos e com sede na casa dos bicos, moradia do grande Afonso de Albuquerque, que deve andar a ranger os dentes no túmulo.

Noutro âmbito é ainda de reter que o Arquipélago da Madeira é aquele que pode, verdadeiramente, fazer concorrência em termos de turismo às ilhas Baleares e sobretudo às Canárias. E é curioso (e lamentável!) que a única ligação marítima entre o Continente e o arquipélago seja feita entre Portimão e o Funchal por um ferry boat… espanhol.

Afinal o “manicómio em autogestão” não acabou nos tempos do famigerado PREC2.

1 - Carta entretanto enviada para o MNE e PR para os efeitos tidos por convenientes…
2 - Processo Revolucionário em Curso

OS “PRÓS E CONTRAS” E A SALVAÇÃO DA PÁTRIA

11/01/10

O programa Prós e Contras passou a ser uma espécie de clínica psiquiátrica onde os portugueses vão semanalmente fazer uma catarse colectiva.

Os resultados, difíceis de avaliar, não parecem colher no campo da objectividade e das realizações práticas quaisquer melhorias sensíveis.

Em primeiro lugar porque tudo resulta numa pequena babilónia discursiva, onde se misturam acertos com disparates, emoções com pragmatismos, subjectividades com análise, tudo isto numa comedida barafunda onde nunca se chega a conclusão alguma sobre o que quer que seja. A fasquia é sempre posta a uma altura que ninguém a consegue saltar…

Depois o programa é inócuo porque não tem poder – e ainda bem porque dali não resultaria nada de objectivo e nem consegue influenciar quem tem poder efectivo, ou nominal e apenas naquilo em que poderia vir a influenciar algum voto transviado.

Tem, porém, a grande valia de nos dar a todos uma fotografia de nós mesmos; da nossa indisciplina mental, do nosso desconchavo colectivo; da parcialidade como se olha para os problemas, da incultura geral com muitos saberes desgarrados pelo meio; da nossa inquietação sebástica permanente; na falta de confiança que todos temos com todos e da inacreditável frustração que sentimos em não poder ser, a todo o momento, um filho d’algo qualquer.

O país seria feliz se pudesse ter dez milhões de primeiros-ministros, mas infelizmente só pode haver um de cada vez…

Mas, sobretudo, o que preocupa mais é constatar a falta de uma visão global das coisas, a inexistência de sínteses de conhecimento, a baralhação das referências morais e espirituais (ou ausência delas), a deriva do que representa uma família grande, chamada Nação. Isto é, não aparece clara em lado algum, que Ideia é que temos e queremos para Portugal. De Pátria portuguesa. Ainda por cima, aquela que havia e que sucessivas gerações de portugueses foi herdando, tem sido sistematicamente desconstruída nos seus fundamentos.

Ora sem esta base de partida formulada e sentida, em termos sólidos, quaisquer tentativas para sair desta crise ou de outra qualquer, resultará frustre. Parecemos um bando de baratas tontas, representados por um conjunto de bonecos desarticulados e gesticulantes, a que chamamos políticos. Por isso cada vez mais nos corrompemos quer individual quer colectivamente.

Sem nexo que nos oriente, entregamo-nos à única coisa que diariamente se torna indispensável e inadiável, que é sobreviver.

Sobreviver é também aquilo que melhor orienta os animais, ditos irracionais, no seu habitat natural.

Sem embargo, eles fazem-no com maior classe e, seguramente, melhor senso.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O AZAR DA D. ELISA

2008

A apresentadora Maria Elisa
Não se percebe a Maria Elisa: está menos comedida e mais agressiva. Os telespectadores não têm certamente culpa do percurso acidentado que, ultimamente, tem tido; zangas com produtores/administradores; atribulações de deputada; corte cerce na “carreira diplomática”; volta às lides televisivas, etc. Uma carreira cheia que atravessa várias ideologias.

Numa última aventura televisiva, infelizmente das menos conseguidas, a do cretino concurso sobre o “melhor português de sempre”, os humores da senhora é que parece que se turvaram. Apesar de toda a destrambelhada e pouco profissional campanha levada a cabo contra o Estado Novo e sobretudo contra a sua principal figura – um sempre modesto professor de Coimbra que jaz modestamente em campa rasa, apesar da sua obra se elevar acima de qualquer outro português (com excepção, talvez, de mais três ou quatro), acabou por ser ele – Salazar -, quem ganhou o primeiro lugar na preferência dos cidadãos que se deram ao trabalho de votar, talvez mais por raiva, do que por outra coisa. Desabou o mundo!

O Estadista Oliveira Salazar,
que venceu o concurso para o melhor Português
É estranho, isto. Enquanto se vilipendiava um notável e honesto estadista que tirou o Estado português da sarjeta e a Nação da lama onde se atolara, aceitava-se com a maior serenidade que um conhecido e empedernido traidor, 10 vezes mais perigoso que o Cristóvam de Moura ocupasse o 2º lugar, e que um modesto funcionário diplomático desconhecido de 99% da população, fosse empurrado para a terceira posição por sionistas e pessoal do ex-reviralho e cuja verdadeira história está longe de ser aquela veículada para o éter!

Isto, depois da mais indecorosa ignorância ter deixado de fora da lista das cem personalidades que apareceram a escrutínio, por exemplo, a figura de D. Nuno Álvares Pereira, talvez o único grande chefe militar português, que nunca perdeu um combate; a quem os portugueses devem, indiscutivelmente, terem continuado a ser independentes e que está neste momento a caminho da santificação. Como se deve classificar tudo isto? Maria Elisa aparenta não ter recuperado deste “choque”.

Regressada às lides televisivas, estreou nova programação com um documentário sobre as cheias ocorridas em 1967. E aproveitou o ensejo de, sobre uma catástrofe natural que se abateu sobre a Nação, tida como a pior a seguir ao terramoto de 1755, lançar uma descabelada catalinária sobre o governo de então: ele eram os meios de salvamento que não havia; a miséria que emergiu?? do ocorrido; a repressão?! aos estudantes que se dispuseram a ajudar; as notícias que a censura cortava (a censura foi tão evocada, que mais um pouco e ainda passava a culpada da “fúria dos elementos”…); a construção que se fazia em leito de cheias, etc. Até se foi evocar, vá-se lá saber porque bulas, a canção que fez o Salgueiro Maria sair de Santarém, em 25 de Abril de… 74!

Bom, eu era um rapaz novo, na altura, e vivia perto de uma dessas zonas duramente atingidas: Algés. E ainda tenho ideia de como as coisas se passaram. Foi de facto uma situação complicada, mas não me lembro de haver falta de notícias, sobre o que se passava.

E recordo que logo na altura se contabilizaram os mortos em mais de 500. Certamente que haveria contenção na forma e no conteúdo, de como se davam as notícias, pois existe toda a vantagem em evitar o pânico, garantir a ordem de modo a que o socorro se possa realizar da melhor forma; serenar os espíritos, etc. tudo coisas que o bom senso dita, mas que para os partidários do vale tudo informativo, logo se apoda da mais tenebrosa censura.

Por isso é que, de há anos a esta parte, a mais desbragada concorrência e exploração dos baixos instintos humanos, nos impõem catadupas de imagens e diálogos os mais incriveis, chocantes e violentos que se repetem “ad nauseum”, a qualquer hora, sem respeito a nada nem a ninguém.

De facto, em 1967, podia haver mais meios (creio que agora também...), e não havia nenhuma estrutura coordenada como a actual Protecção Civil. É verdade. Mas em 1967 também não havia televisão a cores, nem computadores, por exemplo. Aliás, nem se entende como o programa não questionou o Marquês de Pombal, por não haver um corpo e bombeiros em 1755!

É verdade, em 1967 havia pobreza em Portugal e em 1867 também. E, outrossim, em 1767. Tenho até lido nos jornais onde os senhores jornalistas escrevem sem qualquer censura, que agora, hoje, restam dois milhões de pobres. Tem só uma pequena coisa, D. Elisa: desde 1986 que a CEE põe cá cerca de dois milhões de contos/dia e que as toneladas de ouro que os tais de 1967 deixaram de herança, já se venderam metade, e as divisas que havia, consumiram-se. Já me esquecia, em 1967, a moeda nacional era o escudo. Hoje temos o euro.

Mas a D. Elisa teve azar.

Logo na madrugada seguinte em que o programa foi para o ar (a 17/2), desabou sobre a maior parte do País e sobretudo na área da grande Lisboa (a mais afectada também em 1967), uma carga de água tamanha, que no dia seguinte gerou o caos no trânsito; cheias em dezenas de locais; pelo menos um morto; disrupção de actividades; centenas e centenas de pedidos de socorro e prejuizos muitos.

E como já não há censura – diz a D. Elisa e muitos outros, mas eu não acredito, e lá vem tudo especado nos jornais e pantalhas. E as queixas são as mesmas: continua a não haver prevenção; faltam obras tidas por necessárias; reordenamento do território. Continua a haver construção (eu diria que há a mais), em leito de cheia e falhas no socorro, apesar de agora haver muito mais meios e estruturas.

Apareceram até os autarcas a recriminar os governantes e vice-versa! (uma novidade que não havia em 1967!).

O “Prós e Contras” entrevistou até uma catedrática que informou ter a chuva em 1967 sido o dobro da que caíu agora; que os locais de cheias em Lisboa são os mesmos há uma quantidade de anos; que vai acontecer, novamente, e outros pormenores interessantes.

De facto a D. Elisa teve azar. Mas que Diabo, com tanta chuva, era difícil o programa não meter… água.

NUNO ÁLVARES, CHEFE MILITAR

Monumento a D. Nuno Álvares Pereira e Mosteiro de Sta. Maria da Vitória - Batalha
“Não haja medo por serem tantos! Conheço-os bem, pois lavei as minhas mãos no sangue deles, em Trancoso! O que vão é dar-nos muito trabalho a matar, porque são muitos!”
Egas Coelho, antes de Aljubarrota se dar

Tenho para mim que o Comando e a Liderança são o fulcro de toda a actividade militar e pode-se dizer que D. Nuno bem passou dos conceitos à boa prática. Do comando, que tem a ver fundamentalmente com o uso da autoridade investida fez o Condestável bom uso, em termos de pessoal, na táctica, na logística, na organização do terreno, das tropas e da disciplina.

Vindo comandar do latim “cum+mandare”, que quer dizer mandar com os outros, nunca D. Nuno mandou sozinho, ouvindo o seu conselho e dirigindo-se às tropas, sem embargo de manter uma disciplina estrita e regras éticas.

Como líder conduzia os homens de um modo personalizado, protegia-os, motivava-os, moralizava-os invocava princípios superiores, incutia-lhes Fé e dava o exemplo.

Numa palavra, fazia-se amar pelos seus homens que é o estádio mais elevado a que pode aspirar um chefe militar.

Com D. Nuno Álvares a hoste medieval indisciplinada e desorganizada por natureza, tornou-se uma unidade coesa e com unidade de comando. A sua tropa estava disposta a morrer, pelejando, e isto faz toda a diferença.

Convém elaborar um pouco sobre o pequeno Exército do Condestável.

O núcleo inicial desta força foi constituída após a nomeação de D. Nuno como Fronteiro - Mor de entre Tejo e Odiana a seguir ao levantamento do cerco de Lisboa, pelo Rei de Castela, em 1384.

D. Nuno apostou na qualidade e pediu a Peres Anes Lobato que conhecia bem os homens de armas de Lisboa, que lhe escolhesse “poucos mas honestos e valentes e de preferência alentejanos!”

Estamos em crer que D. Nuno organizou a sua hoste um pouco à semelhança das Companhias Livres, que eram grupos de mercenários que tinham surgido na Europa na sequência da Guerra dos 100 anos e faziam um contrato – um condotte – com uma das partes da contenda batalhando por esta. Algumas destas “companhias” estacionaram em Portugal desde o tempo de D. Fernando. Estas companhias estavam por assim dizer, profissionalizadas, conheciam as últimas tácticas e técnicas e o armamento mais moderno.

D. Nuno terá substituído na sua hoste, o lucro financeiro pelo patriotismo.

Apesar de muito novo o Fronteiro Mor não deixava nada ao acaso; treinava as tropas e testava-as. Por exemplo poucos dias depois de ter saído de Lisboa para o Alentejo estando acampados perto de Setúbal, provocou um falso alarme, dizendo que 300 lanças castelhanos vinham sobre eles. E constatou com alegria como de pronto se aprestaram em ordem e com bom ânimo para o combate, concluindo, que a sua hoste era como um corpo vivo, por onde circulava o bom sangue do mesmo bom desejo”!

Para além de um conjunto alargado e homogéneo de virtudes militares que características podemos evidenciar em D. Nuno?

Para já a aprendizagem e o conhecimento. Camões afirmava que “não houve bom capitão que não fosse douto e ciente” e o condestável cedo aprendeu as novas tácticas e técnicas do seu tempo. Preparou-se para a guerra do futuro e não para a do passado.

Ligado a este saber temos a iniciativa e a inovação, que se pode sintetizar nas palavras de Fernão Lopes “ Este D. Nuno foi o primeiro que da memória dos homens até este tempo, pôs batalha pé terra em Portugal e venceu …”.

Usava de astúcia e era exímio organizador de terreno, não só escolhendo locais adequados para dar batalha como pela utilização de abatizes, valas e covas de lobo. Era na organização do terreno que D. Nuno conseguia contrabalançar o efeito do número, como tão bem ficou demonstrado em Aljubarrota.

Mas D. Nuno sabia usar a audácia e o risco calculado em alto grau. Era capaz – tal como Mouzinho - de arriscar tudo em lances decisivos. Tinha Fé e se algumas vezes teve dúvidas, guardava-as para si.

Apesar da benegnidade do seu relacionamento não deixava de ser um disciplinador severo, pois sem disciplina não existe exército, e disso nos dá conta também Fernão Lopes “pos e os todos em batalha per hordenança como devia, e assi foram regidos pée terra…” Impôs ainda, e por exemplo, a expulsão de todas as mulheres da hoste e bem assim proibiu o jogo de dados” – Não creio que estas medidas estejam desactualizadas!...

Conto aqui um pormenor: o único pertence de D. Nuno que aparentemente chegou aos nossos dias, é a espada que está no Museu Militar. Essa espada cuja lâmina de origem alemã, é original, ao contrário do punho que é do século XVI, não era a sua espada de combate, mas era o seu símbolo de autoridade, pois era a espada de execução. Estava à guarda do seu Meirinho Mor João Gonçalves que também professou na Ordem do Carmo e mais tarde entrou para o Convento de Lisboa, com D. Nuno. Foi ele que a levou para lá e assim se salvou.

Finalmente a última característica que gostaria de salientar é a coragem moral de D. Nuno. E esta nos grandes chefes é ainda mais importante do que a coragem física.

Munido dessa coragem D. Nuno soube sempre defender aquilo em que acreditava duma maneira leal, mas também frontal. E não teve pejo de enfrentar o Conselho do Rei e o próprio Rei. Por vezes estas atitudes só não se transformaram em desobediência porque o monarca acabou por concordar com as suas posições.

Num outro campo houve divergências. Refiro-me ao cerco e tomada de vilas e cidades. D. João I empenhou-se nestas acções enquanto que D. Nuno as evitava.

Temos que julgar os dois personagens em âmbitos distintos, porém, D. João era o Rei e por isso tinha que atender a todos os negócios e a todas as sensibilidades. D. Nuno era apenas o Comandante do Exército.

Mas a amizade e a lealdade entre os dois homens manteve-se incólume até ao fim do seus dias, coisa rara também de se ver, no reino de Portugal.

E a ditadura do tempo obriga-me a ficar por aqui.