segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O MUNDIAL DE FUTEBOL E AS MISSÕES MILITARES NO EXTERIOR

05/06/2010

A Selecção Nacional de futebol de 11, começa a 5 de Junho uma missão no exterior: vai participar no Campeonato Mundial da modalidade que se realiza na República da África do Sul (RAS); e tem um objectivo que é a de defrontar e, se possível, vencer as equipas que lhe calharem em sorte, até ao derradeiro jogo final. Em qualquer dos casos jogar bem, esforçar-se e cumprir os deveres associados.

As Forças Armadas Portuguesas (Fas) e a GNR têm, neste momento, várias unidades suas destacadas em diferentes teatros de operações com perigosidade variável, a saber: cerca de 200 homens no Afeganistão; 300 no Kosovo; 12 na Bósnia; 130 no Líbano, cerca de 40 homens a operar no Corno de África e 120 em Timor.

Em cooperação técnico militar nos PALOPs, existirão uns 30 e outros 40 estão distribuídos por diferentes quartéis-generais. Há cerca de 20 anos que assim é, tendo já sido mobilizados cerca de 30000 homens para mais de 30 países diferentes. A sua missão é o de participarem em missões humanitárias, de paz e de imposição de paz, no âmbito das organizações ou alianças de que Portugal faz parte. Neste momento o Afeganistão configura um verdadeiro teatro de guerra.

Vejamos alguns aspectos que ilustram o modo como os órgãos do Estado, os “media” e a população em geral, encara estas duas realidades.

A preparação para o campeonato de futebol, que é apenas uma competição desportiva de carácter lúdico e que está confinada a um período curto de espaço e tempo, desenvolve-se em ambiente festivo e com uma visibilidade mediática que raia o estupidificante.

É um verdadeiro massacre visual, auditivo e em papel, que cai sobre o cidadão que, aparentemente, gosta. Pelo menos esta é a desculpa recorrente dos órgãos de comunicação social para fazerem o que fazem.

As condições dos eleitos que constituem a “caravana” é rodeada de todos os luxos que fazem os atletas e técnicos parecerem uns nababos, já para não falar nos vencimentos algo pornográficos que auferem, não havendo “crise” que os refreie. O seleccionador está, ao que corre, em sexto de todos as mais bem pagos que participam e aos jogadores, só por estarem “deslocados” na Covilhã, num meio circo meio estágio, usufruem a modesta quantia de 800 euros/dia, só de ajudas de custo, quando ainda por cima não têm que despender um cêntimo…

Os jogadores, que cada vez menos configuram uma selecção nacional – deram em naturalizar uns quantos estrangeiros à pressa – são rodeados de todas as atenções. A participação no campeonato não envolve quaisquer riscos, a não ser aqueles decorrentes de lesões ou de uma falta mais dura, além de uma ou outra pergunta mais incómoda de um jornalista ou de uns quantos assobios, na volta, derivados de uma eventual má prestação.

A entidade organizadora do evento é a Federação Portuguesa de futebol, que se move num meio cravejado de claques e toda a sorte de desvergonhas, impróprias de olhares de menores de 70 anos.

Quando chega a hora da partida, há foguetes, bandas, bandeiras, comezainas, declarações furiosas de optimismo e fezádas de vitória. Vá lá, à falta de boas notícias e de nunca mais sair o totoloto, sempre é uma maneira do pessoal ter uns momentos de alegria. Percebe-se. Alguns até aprendem a cantar o hino que de outro modo não saberiam e inventam usos inusitados para a bandeira nacional, que o olhar complacente e às vezes embevecido, dos agentes de autoridade consente.

Os poderes públicos ao verem tão patrióticos propósitos e desbragado entusiasmo, cavalgam a onda, e não raras vezes ultrapassam, pela direita alta ou pela esquerda baixa, o entusiasmo popular.

Meio mundo tenta explorar as oportunidades de negócio que o evento proporciona e milhares de pessoas compram bilhete e tiram férias, sabe-se lá com que sacrifícios.

*****
Vejamos agora o que se passa com as missões militares no exterior.

Estas missões são definidas ao mais alto nível do Estado e servem, supostamente, para defender os interesses globais desse mesmo estado e do país. São pois, altos desígnios que estão em jogo, não um simples campeonato desportivo. Estes desígnios não são a “feijões”. Envolvem somas financeiras elevadas e um conjunto complexo de meios e exige uma selecção, preparação e treino muito apurados, de meios humanos. Finalmente, estas missões envolvem riscos sérios que, não poucas vezes, causam ferimentos graves e a própria morte, nos intervenientes.

Ora o que acontece?

Normalmente, e ao contrário dos campeonatos de futebol cujo calendário se sabe com muita antecipação, as missões militares são decididas de um momento para o outro – o que há partida exige uma estrutura que se compadeça com uma coisa destas; vai-se a ver e falta normalmente tudo o que é preciso, pois os meios ou não estão previstos na Lei de Programação Militar e, ou, são postergados continuamente; a seguir corre-se a comprar por ajuste directo, o que sai mais caro e nem sempre se consegue. Por várias vezes o governo português teve já, que pedir material emprestado a nações aliadas…

Sobre o que se passa, pouca gente fala. Os orgãos de comunicação social (OCS), habituados a toda a sorte de cusquices, sentem uma verdadeira azia quando se trata de reportar o que se passa. Uma ou outra notícia fugaz, de um treino; uma reportagem de um enviado especial quando o rei faz anos e umas imagens de choros e abraços nas partidas e chegadas.

O comportamento dos responsáveis do Estado também não é melhor: quando não primam pela ausência, aparecem embaraçados, distantes, conformados com uma maçada. Falta-lhes convicção e autenticidade. Ou é isso que reflectem. Dizem umas palavras de circunstância e, logo a seguir, vão por detrás e zás, mais umas facadas no orçamento, estrutura, meios, etc., das FAs.

Quando morre um militar tudo se altera: passa-se do 8 para o 80. Os OCS despejam pipas de noticias, massacrando a família e amigos da vítima; descobrindo imensas coisas que criticar, etc.. Os representantes do Estado estão presentes ou fazem-se representar num esforço desproporcionado ao evento, mas sempre rezando para que o ocorrido seja esquecido rapidamente. O povo em geral, anestesiado por catadupas de informação e desinformação, encolhe os ombros e sussurra quanto muito um “coitado teve azar”. E alguns rematam, dizendo “foi para lá porque quis…”.

Ou seja a acção destes homens que abnegadamente servem o seu país, ganham mal (relativamente), estão longe da família em ambiente hostil e perigoso, sofrendo as inclemencias do clima e o “stress” do perigo e que, calados e humildes, cumprem as suas missões sem queixumes - mesmo quando o seu equipamento não é o adequado - não têm qualquer tipo de reconhecimento nem visibilidade. E se os compararmos aos 20 minutos que uma qualquer estação televisiva dedica às ementas, aos quartos e às massagens dos jogadores da bola, estaremos até a ofendê-los.

Quem prepara estes homens e é responsável por os manter operacionais e com moral elevado é a Instituição Militar (IM). A IM também já teve os seus momentos maus, mas é uma instituição nacional, séria, cuja história se confunde com a nacionalidade e sem a qual Portugal nunca teria existido nem se manteria.

O mundo das FAs não é propriamente o mundo do futebol e os generais e almirantes não se parecem nada com os dirigentes dos clubes. Ou parecem? Agora meditem no tratamento que goza a F.P.F. comparado com o Exército, a FA ou a Armada!

Acreditem que gostaria que a nossa selecção de futebol ganhasse a taça. Já ficaria contente se tivesse uma boa prestação.

Agora aquilo que de facto me satisfaria, era que na nossa terra houvesse o sentido das proporções, da justiça relativa e que não se andasse a matar o bom senso diariamente.

Porque, até ver, ainda ninguém morreu de ridículo.

sábado, 11 de setembro de 2010

O REI DE ESPANHA VISITOU A MADEIRA

05/08/09

O Rei D. Juan Carlos, na Madeira a ser entronizado confrade do Vinho da Madeira
Sua Muito Católica Majestade, o Rei D. Juan Carlos visitou o Arquipélago da Madeira, lacuna agora colmatada, dos seus tempos de juventude em Portugal e dos seus posteriores afazeres de Estado.

Juanito, para os amigos, mostra-se sempre simpático para com Portugal e os portugueses – e também não tem razão nenhuma para não o ser – fala português, uma coisa quase impensável para um espanhol e sobretudo num castelhano, e pensamos que tem ganho jus à consideração geral como homem e como estadista. Excedeu até as expectativas quando mandou calar aquele senhor que dá pelo nome de Chávez.

Por isso não há razão nenhuma de ordem pessoal para que o monarca de cerca de três quartos da antiga Hispânia não seja bem recebido no antigo reino de Portugal e dos Algarves. Quando, porém, as questões de Estado se intrometem nas visitas oficiais e nos passeios o caso muda de figura. E quando fôr caso disso os nossos representantes têm que pôr a coluna erecta, levantar o queixo, olhá-lo nos olhos e dizer-lhe o que for de justiça.

Durante a visita à Madeira decorreu o aniversário da banda de música de Câmara de Lobos, onde actuou a banda local e… a filarmónica de Olivenza (com “z”). Este evento foi promovido pela Secretaria de Estado Regional dos Assuntos Culturais.

Ora tal facto, à luz do diferendo que existe desde 1801/7 relativamente à ocupação ilegal daquela antiga e portuguesíssima vila – onde os espanhóis de resto, não têm razão alguma – só pode ser considerado uma provocação, ou uma distracção de mau gosto.

Aliás, de Espanha poderia ter vindo uma banda de 30000 localidades diferentes, mas escolheu-se a de Olivença. Não foi certamente por acaso. Moncloa sabe do seu ofício e é pena é que do lado português andem todos aparentemente a dormir na forma e ninguém faça o trabalho de casa.

Vejamos: a questão de Olivença é sistematicamente ignorada em todas as cimeiras luso-espanholas (e não ibéricas, um erro elementar!) que se realizam todos os seis meses - a próxima vai ser em Elvas. Mas curiosamente o primeiro ministro Zapatero escreveu uma carta à direcção dos Amigos de Olivença (GAO) – patriótica associação constituída em 1938, e que desde então luta denodadamente pelo retorno de Olivença à sua Pátria – exortava o GAO “a participar positivamente na resolução do assunto1.

Mais tarde constituiu-se em Olivença o fórum “Além Guadiana” de iniciativa local para promover actividades de cariz cultural. Mas como se mostraram, de um modo geral favoráveis a Portugal, tal não terá agradado às autoridades espanholas, que logo se moveram contra aquelas “irreverências”.

No passado dia 11 de Julho, deram-se até ao desplante de inaugurar um busto dessa figura sinistra que foi Manuel Godoy – principal carrasco da Olivença portuguesa – numa das salas da Torre de Menagem do Castelo daquela vila, mandado construir por … D. Dinis.

Do lado de cá da raia, vários autarcas de municípios vizinhos, continuam a fazer e a dizer uma série de disparates, pois não há maneira de entenderem que se têm que desenvolver juntando-se à costa portuguesa, e não ao lado de lá da fronteira. É que no fim de serem chupados, os caramelos espanhóis, deixam sempre uma grande amargo de boca...

Ora na Madeira a coisa fia ainda mais fino: os nossos “hermanos” – manda a boa higiene e os bons costumes que os irmãos quando crescidos, devem viver em casas separadas – ainda alimentam reivindicações espúrias sobre as ilhas Selvagens e não devem gostar nada de actos de soberania portuguesa, como foi a recente visita de Jaime Gama, em Maio deste ano, enquanto presidente da Assembleia da República, àquele pedaço de território de grande importância estratégica.

E em tudo o que os espanhóis façam ou intentem, nós devemos desconfiar e é lamentável que os portugueses passassem a esquecer rapidamente os seus “segredos de família” e a andar com as “guardas” em baixo.

A banda de Olivença permaneceu quatro dias no Arquipélago e deu dois concertos, juntamente com a “Banda Recreio Camponês” de Câmara de Lobos: só fazia sentido recebê-la não como espanhola mas como indo de território português… Mas tudo passou despercebido entre autoridades, população e meios de comunicação social.

Curiosamente, ou não, lá apareceu mais uma sondagem cretina, feita pela Universidade de Salamanca e publicitada pelo “El Pais” (tido como próximo do PSOE), em que se afirma que percentagens elevadas de portugueses e espanhóis pretendem a (maldita da) União Ibérica.

E houve até um conhecido banqueiro português que veio afirmar a necessidade de “amalgamar” tudo o mais possível. Já não chegavam os grotescos Saramago e Mário Lino, se auto proclamarem traidores – ao dizerem-se iberistas

O segundo sendo ministro, continuou no governo; ao primeiro ofereceu-se-lhe uma fundação, paga com dinheiros públicos e com sede na casa dos bicos, moradia do grande Afonso de Albuquerque, que deve andar a ranger os dentes no túmulo.

Noutro âmbito é ainda de reter que o Arquipélago da Madeira é aquele que pode, verdadeiramente, fazer concorrência em termos de turismo às ilhas Baleares e sobretudo às Canárias. E é curioso (e lamentável!) que a única ligação marítima entre o Continente e o arquipélago seja feita entre Portimão e o Funchal por um ferry boat… espanhol.

Afinal o “manicómio em autogestão” não acabou nos tempos do famigerado PREC2.

1 - Carta entretanto enviada para o MNE e PR para os efeitos tidos por convenientes…
2 - Processo Revolucionário em Curso

OS “PRÓS E CONTRAS” E A SALVAÇÃO DA PÁTRIA

11/01/10

O programa Prós e Contras passou a ser uma espécie de clínica psiquiátrica onde os portugueses vão semanalmente fazer uma catarse colectiva.

Os resultados, difíceis de avaliar, não parecem colher no campo da objectividade e das realizações práticas quaisquer melhorias sensíveis.

Em primeiro lugar porque tudo resulta numa pequena babilónia discursiva, onde se misturam acertos com disparates, emoções com pragmatismos, subjectividades com análise, tudo isto numa comedida barafunda onde nunca se chega a conclusão alguma sobre o que quer que seja. A fasquia é sempre posta a uma altura que ninguém a consegue saltar…

Depois o programa é inócuo porque não tem poder – e ainda bem porque dali não resultaria nada de objectivo e nem consegue influenciar quem tem poder efectivo, ou nominal e apenas naquilo em que poderia vir a influenciar algum voto transviado.

Tem, porém, a grande valia de nos dar a todos uma fotografia de nós mesmos; da nossa indisciplina mental, do nosso desconchavo colectivo; da parcialidade como se olha para os problemas, da incultura geral com muitos saberes desgarrados pelo meio; da nossa inquietação sebástica permanente; na falta de confiança que todos temos com todos e da inacreditável frustração que sentimos em não poder ser, a todo o momento, um filho d’algo qualquer.

O país seria feliz se pudesse ter dez milhões de primeiros-ministros, mas infelizmente só pode haver um de cada vez…

Mas, sobretudo, o que preocupa mais é constatar a falta de uma visão global das coisas, a inexistência de sínteses de conhecimento, a baralhação das referências morais e espirituais (ou ausência delas), a deriva do que representa uma família grande, chamada Nação. Isto é, não aparece clara em lado algum, que Ideia é que temos e queremos para Portugal. De Pátria portuguesa. Ainda por cima, aquela que havia e que sucessivas gerações de portugueses foi herdando, tem sido sistematicamente desconstruída nos seus fundamentos.

Ora sem esta base de partida formulada e sentida, em termos sólidos, quaisquer tentativas para sair desta crise ou de outra qualquer, resultará frustre. Parecemos um bando de baratas tontas, representados por um conjunto de bonecos desarticulados e gesticulantes, a que chamamos políticos. Por isso cada vez mais nos corrompemos quer individual quer colectivamente.

Sem nexo que nos oriente, entregamo-nos à única coisa que diariamente se torna indispensável e inadiável, que é sobreviver.

Sobreviver é também aquilo que melhor orienta os animais, ditos irracionais, no seu habitat natural.

Sem embargo, eles fazem-no com maior classe e, seguramente, melhor senso.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O AZAR DA D. ELISA

2008

A apresentadora Maria Elisa
Não se percebe a Maria Elisa: está menos comedida e mais agressiva. Os telespectadores não têm certamente culpa do percurso acidentado que, ultimamente, tem tido; zangas com produtores/administradores; atribulações de deputada; corte cerce na “carreira diplomática”; volta às lides televisivas, etc. Uma carreira cheia que atravessa várias ideologias.

Numa última aventura televisiva, infelizmente das menos conseguidas, a do cretino concurso sobre o “melhor português de sempre”, os humores da senhora é que parece que se turvaram. Apesar de toda a destrambelhada e pouco profissional campanha levada a cabo contra o Estado Novo e sobretudo contra a sua principal figura – um sempre modesto professor de Coimbra que jaz modestamente em campa rasa, apesar da sua obra se elevar acima de qualquer outro português (com excepção, talvez, de mais três ou quatro), acabou por ser ele – Salazar -, quem ganhou o primeiro lugar na preferência dos cidadãos que se deram ao trabalho de votar, talvez mais por raiva, do que por outra coisa. Desabou o mundo!

O Estadista Oliveira Salazar,
que venceu o concurso para o melhor Português
É estranho, isto. Enquanto se vilipendiava um notável e honesto estadista que tirou o Estado português da sarjeta e a Nação da lama onde se atolara, aceitava-se com a maior serenidade que um conhecido e empedernido traidor, 10 vezes mais perigoso que o Cristóvam de Moura ocupasse o 2º lugar, e que um modesto funcionário diplomático desconhecido de 99% da população, fosse empurrado para a terceira posição por sionistas e pessoal do ex-reviralho e cuja verdadeira história está longe de ser aquela veículada para o éter!

Isto, depois da mais indecorosa ignorância ter deixado de fora da lista das cem personalidades que apareceram a escrutínio, por exemplo, a figura de D. Nuno Álvares Pereira, talvez o único grande chefe militar português, que nunca perdeu um combate; a quem os portugueses devem, indiscutivelmente, terem continuado a ser independentes e que está neste momento a caminho da santificação. Como se deve classificar tudo isto? Maria Elisa aparenta não ter recuperado deste “choque”.

Regressada às lides televisivas, estreou nova programação com um documentário sobre as cheias ocorridas em 1967. E aproveitou o ensejo de, sobre uma catástrofe natural que se abateu sobre a Nação, tida como a pior a seguir ao terramoto de 1755, lançar uma descabelada catalinária sobre o governo de então: ele eram os meios de salvamento que não havia; a miséria que emergiu?? do ocorrido; a repressão?! aos estudantes que se dispuseram a ajudar; as notícias que a censura cortava (a censura foi tão evocada, que mais um pouco e ainda passava a culpada da “fúria dos elementos”…); a construção que se fazia em leito de cheias, etc. Até se foi evocar, vá-se lá saber porque bulas, a canção que fez o Salgueiro Maria sair de Santarém, em 25 de Abril de… 74!

Bom, eu era um rapaz novo, na altura, e vivia perto de uma dessas zonas duramente atingidas: Algés. E ainda tenho ideia de como as coisas se passaram. Foi de facto uma situação complicada, mas não me lembro de haver falta de notícias, sobre o que se passava.

E recordo que logo na altura se contabilizaram os mortos em mais de 500. Certamente que haveria contenção na forma e no conteúdo, de como se davam as notícias, pois existe toda a vantagem em evitar o pânico, garantir a ordem de modo a que o socorro se possa realizar da melhor forma; serenar os espíritos, etc. tudo coisas que o bom senso dita, mas que para os partidários do vale tudo informativo, logo se apoda da mais tenebrosa censura.

Por isso é que, de há anos a esta parte, a mais desbragada concorrência e exploração dos baixos instintos humanos, nos impõem catadupas de imagens e diálogos os mais incriveis, chocantes e violentos que se repetem “ad nauseum”, a qualquer hora, sem respeito a nada nem a ninguém.

De facto, em 1967, podia haver mais meios (creio que agora também...), e não havia nenhuma estrutura coordenada como a actual Protecção Civil. É verdade. Mas em 1967 também não havia televisão a cores, nem computadores, por exemplo. Aliás, nem se entende como o programa não questionou o Marquês de Pombal, por não haver um corpo e bombeiros em 1755!

É verdade, em 1967 havia pobreza em Portugal e em 1867 também. E, outrossim, em 1767. Tenho até lido nos jornais onde os senhores jornalistas escrevem sem qualquer censura, que agora, hoje, restam dois milhões de pobres. Tem só uma pequena coisa, D. Elisa: desde 1986 que a CEE põe cá cerca de dois milhões de contos/dia e que as toneladas de ouro que os tais de 1967 deixaram de herança, já se venderam metade, e as divisas que havia, consumiram-se. Já me esquecia, em 1967, a moeda nacional era o escudo. Hoje temos o euro.

Mas a D. Elisa teve azar.

Logo na madrugada seguinte em que o programa foi para o ar (a 17/2), desabou sobre a maior parte do País e sobretudo na área da grande Lisboa (a mais afectada também em 1967), uma carga de água tamanha, que no dia seguinte gerou o caos no trânsito; cheias em dezenas de locais; pelo menos um morto; disrupção de actividades; centenas e centenas de pedidos de socorro e prejuizos muitos.

E como já não há censura – diz a D. Elisa e muitos outros, mas eu não acredito, e lá vem tudo especado nos jornais e pantalhas. E as queixas são as mesmas: continua a não haver prevenção; faltam obras tidas por necessárias; reordenamento do território. Continua a haver construção (eu diria que há a mais), em leito de cheia e falhas no socorro, apesar de agora haver muito mais meios e estruturas.

Apareceram até os autarcas a recriminar os governantes e vice-versa! (uma novidade que não havia em 1967!).

O “Prós e Contras” entrevistou até uma catedrática que informou ter a chuva em 1967 sido o dobro da que caíu agora; que os locais de cheias em Lisboa são os mesmos há uma quantidade de anos; que vai acontecer, novamente, e outros pormenores interessantes.

De facto a D. Elisa teve azar. Mas que Diabo, com tanta chuva, era difícil o programa não meter… água.

NUNO ÁLVARES, CHEFE MILITAR

Monumento a D. Nuno Álvares Pereira e Mosteiro de Sta. Maria da Vitória - Batalha
“Não haja medo por serem tantos! Conheço-os bem, pois lavei as minhas mãos no sangue deles, em Trancoso! O que vão é dar-nos muito trabalho a matar, porque são muitos!”
Egas Coelho, antes de Aljubarrota se dar

Tenho para mim que o Comando e a Liderança são o fulcro de toda a actividade militar e pode-se dizer que D. Nuno bem passou dos conceitos à boa prática. Do comando, que tem a ver fundamentalmente com o uso da autoridade investida fez o Condestável bom uso, em termos de pessoal, na táctica, na logística, na organização do terreno, das tropas e da disciplina.

Vindo comandar do latim “cum+mandare”, que quer dizer mandar com os outros, nunca D. Nuno mandou sozinho, ouvindo o seu conselho e dirigindo-se às tropas, sem embargo de manter uma disciplina estrita e regras éticas.

Como líder conduzia os homens de um modo personalizado, protegia-os, motivava-os, moralizava-os invocava princípios superiores, incutia-lhes Fé e dava o exemplo.

Numa palavra, fazia-se amar pelos seus homens que é o estádio mais elevado a que pode aspirar um chefe militar.

Com D. Nuno Álvares a hoste medieval indisciplinada e desorganizada por natureza, tornou-se uma unidade coesa e com unidade de comando. A sua tropa estava disposta a morrer, pelejando, e isto faz toda a diferença.

Convém elaborar um pouco sobre o pequeno Exército do Condestável.

O núcleo inicial desta força foi constituída após a nomeação de D. Nuno como Fronteiro - Mor de entre Tejo e Odiana a seguir ao levantamento do cerco de Lisboa, pelo Rei de Castela, em 1384.

D. Nuno apostou na qualidade e pediu a Peres Anes Lobato que conhecia bem os homens de armas de Lisboa, que lhe escolhesse “poucos mas honestos e valentes e de preferência alentejanos!”

Estamos em crer que D. Nuno organizou a sua hoste um pouco à semelhança das Companhias Livres, que eram grupos de mercenários que tinham surgido na Europa na sequência da Guerra dos 100 anos e faziam um contrato – um condotte – com uma das partes da contenda batalhando por esta. Algumas destas “companhias” estacionaram em Portugal desde o tempo de D. Fernando. Estas companhias estavam por assim dizer, profissionalizadas, conheciam as últimas tácticas e técnicas e o armamento mais moderno.

D. Nuno terá substituído na sua hoste, o lucro financeiro pelo patriotismo.

Apesar de muito novo o Fronteiro Mor não deixava nada ao acaso; treinava as tropas e testava-as. Por exemplo poucos dias depois de ter saído de Lisboa para o Alentejo estando acampados perto de Setúbal, provocou um falso alarme, dizendo que 300 lanças castelhanos vinham sobre eles. E constatou com alegria como de pronto se aprestaram em ordem e com bom ânimo para o combate, concluindo, que a sua hoste era como um corpo vivo, por onde circulava o bom sangue do mesmo bom desejo”!

Para além de um conjunto alargado e homogéneo de virtudes militares que características podemos evidenciar em D. Nuno?

Para já a aprendizagem e o conhecimento. Camões afirmava que “não houve bom capitão que não fosse douto e ciente” e o condestável cedo aprendeu as novas tácticas e técnicas do seu tempo. Preparou-se para a guerra do futuro e não para a do passado.

Ligado a este saber temos a iniciativa e a inovação, que se pode sintetizar nas palavras de Fernão Lopes “ Este D. Nuno foi o primeiro que da memória dos homens até este tempo, pôs batalha pé terra em Portugal e venceu …”.

Usava de astúcia e era exímio organizador de terreno, não só escolhendo locais adequados para dar batalha como pela utilização de abatizes, valas e covas de lobo. Era na organização do terreno que D. Nuno conseguia contrabalançar o efeito do número, como tão bem ficou demonstrado em Aljubarrota.

Mas D. Nuno sabia usar a audácia e o risco calculado em alto grau. Era capaz – tal como Mouzinho - de arriscar tudo em lances decisivos. Tinha Fé e se algumas vezes teve dúvidas, guardava-as para si.

Apesar da benegnidade do seu relacionamento não deixava de ser um disciplinador severo, pois sem disciplina não existe exército, e disso nos dá conta também Fernão Lopes “pos e os todos em batalha per hordenança como devia, e assi foram regidos pée terra…” Impôs ainda, e por exemplo, a expulsão de todas as mulheres da hoste e bem assim proibiu o jogo de dados” – Não creio que estas medidas estejam desactualizadas!...

Conto aqui um pormenor: o único pertence de D. Nuno que aparentemente chegou aos nossos dias, é a espada que está no Museu Militar. Essa espada cuja lâmina de origem alemã, é original, ao contrário do punho que é do século XVI, não era a sua espada de combate, mas era o seu símbolo de autoridade, pois era a espada de execução. Estava à guarda do seu Meirinho Mor João Gonçalves que também professou na Ordem do Carmo e mais tarde entrou para o Convento de Lisboa, com D. Nuno. Foi ele que a levou para lá e assim se salvou.

Finalmente a última característica que gostaria de salientar é a coragem moral de D. Nuno. E esta nos grandes chefes é ainda mais importante do que a coragem física.

Munido dessa coragem D. Nuno soube sempre defender aquilo em que acreditava duma maneira leal, mas também frontal. E não teve pejo de enfrentar o Conselho do Rei e o próprio Rei. Por vezes estas atitudes só não se transformaram em desobediência porque o monarca acabou por concordar com as suas posições.

Num outro campo houve divergências. Refiro-me ao cerco e tomada de vilas e cidades. D. João I empenhou-se nestas acções enquanto que D. Nuno as evitava.

Temos que julgar os dois personagens em âmbitos distintos, porém, D. João era o Rei e por isso tinha que atender a todos os negócios e a todas as sensibilidades. D. Nuno era apenas o Comandante do Exército.

Mas a amizade e a lealdade entre os dois homens manteve-se incólume até ao fim do seus dias, coisa rara também de se ver, no reino de Portugal.

E a ditadura do tempo obriga-me a ficar por aqui.

COMEMORAR D. NUNO ÁLVARES PEREIRA, UM DEVER NACIONAL

“Aqui jaz o famoso Nuno, o Condestável, fundador da Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a sua vida na terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos Santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge. Fundou, construiu e dedicou esta Igreja onde descansa o seu corpo”.

Inscrição que existiria na pedra tumular da sepultura primitiva de D. Nuno Álvares Pereira, na Igreja do Carmo em Lisboa

Explicámos em artigos anteriores as razões pelas quais se deveria aproveitar a distinção feita por Sua Santidade o Papa ao elevar à categoria de Santo um dos nossos mais ilustres antepassados; as razões pelas quais o júbilo não se deveria quedar pelo povo católico e ainda as razões que acreditamos estarem na origem da falta de vontade por parte das forças políticas e de outras, cuja actuação nada tem de transparente, em promoverem quaisquer manifestações que saiam fora do âmbito religioso.

Também nos parece evidente que as razões que aduzimos para esta atitude dos políticos e que se fundam nas asneiras muito graves cometidas por alturas de 1974/75, no desprezo pelo nosso passado histórico, pela adopção de ideologias contrárias aos interesses nacionais, pelo jacobinismo militante e pelos próceres defensores da federalização dos países europeus, dificilmente serão assumidas publicamente pelas personalidades ou forças que as sustentam.

Tal poderia espoletar debates “perigosos” de desfecho incerto e acordar consciências adormecidas por acções de cariz apologético e, ou, intimidatório (vulgo lavagem ao cérebro desenfreada), mas falsas na sua essência.

Não, o principal ponto que sustentará a objecção política a comemorações alargadas com empenhamento dos órgãos do Estado irá ser o argumento de que, em Portugal, o Estado é laico e existem perfeitamente definidos e separados os poderes e aquilo que pertence a Deus e o que cabe a César. Ora sendo a canonização de Nuno Álvares um acto eminentemente religioso, a César não compete imiscuir-se nem tomar partido.

Para não dizer que não fazem nada, os representantes do Povo, apelidados de deputados, por proposta de alguns, aprovaram recente e maioritariamente, um voto de congratulação pelo sucedido, embora uma mão cheia deles se abstivessem – isto é, tanto lhes faz e dão ao desprezo – e outros tantos até votaram contra – ou seja estão tristes por um compatriota seu (partindo do princípio que se sentem portugueses…) tenha sido distinguido com uma honra, que eles certamente abominam mas que não deixa de ser uma honra.

Era assim como se alguns de nós fossemos votar contra pelo facto de Saramago ter recebido o Nobel, só por não gostarmos da criatura.

De qualquer modo o voto de congratulações não obriga a fazer nada…

É este argumento peco que deve ser desmontado e nem sequer é difícil fazê-lo. Vejamos:

Em primeiro lugar a própria distinção religiosa deve ser motivo de júbilo nacional e não apenas dos católicos, já que é o reconhecimento de uma coisa boa – mesmo para quem não tem Fé – e que tem uma expressão a nível mundial.

Que “diabo”, não estamos a tratar de um condenado por um qualquer tribunal internacional… Se assim for, um dia que houver um judeu ou um muçulmano português que se distinga, numa área qualquer da cultura, do desporto, no campo científico, etc., os católicos não se devem regozijar por isso, ou não vão participar numa qualquer homenagem nacional que se lhe queira fazer?

Por outro lado Portugal é um país de grande tradição cristã e católica que nos vem da fundação da nacionalidade. Os portugueses foram um pilar da Cristandade e são grandemente responsáveis pela expansão da palavra do Deus que morreu na cruz, em todo o mundo. Hoje em dia a grande maioria do povo português ainda se diz católica e teve de alguma forma formação católica.

Então os órgãos do Estado que representam a Nação politicamente organizada fingem não ter nada a ver com esta realidade? Assumem-se (não quer dizer que o sejam!) tão democráticos e, neste caso, a maioria não lhes diz nada? Mas isto tem alguma lógica?

Vejamos ainda outro aspecto de primordial importância: a dimensão do personagem. D. Nuno não é um cidadão cuja vida se tivesse confinado ao âmbito religioso, como são por exemplo, os casos da irmã Lúcia ou do bom do Padre Américo.

D. Nuno é uma figura avantajada da História de Portugal, foi um grande comandante militar e um líder natural, cuja acção se repercutiu na política nacional, numa altura gravíssima em que a independência corria sério perigo; consubstanciou um conjunto raro de virtudes morais, cívicas e militares, absolutamente invulgar.

Numa palavra é um exemplo para todos e que, justamente, a todos devia servir de inspiração. São raros os países no mundo que se podem orgulhar de terem figuras da sua igualha e nós em Portugal não fazemos nada?

Perdoarão os leitores, mas creio que os portugueses se etilizaram colectivamente numa festa qualquer que ninguém deu conta ainda que acabou e assim ficaram.

Então a selecção nacional de futebol que não deixa de ser um grupo de atletas principescamente pagos, que estacionam nos melhores hotéis, fazem estágios com cozinheiros, massagistas, médicos, etc., e restante parafernália ao seu serviço, que nos custa os olhos da cara e que ano após ano só nos dão desgostos, são recebidos pelo PR, pelo Chefe de Governo, são cumulados de telegramas e atenções, têm multidões à espera e são objecto de cobertura mediática capaz de criar urticária nos mais pacatos cidadãos e uma figura da estirpe do Santo Condestável, que nos tem guiado desde o século XIV e continua actual, não merece aos portugueses mais do que uma nota exaltante da Conferência Episcopal? (honra lhe seja feita).

Que grave doença moral e até degenerescência física terá atingido o antigo Reino, agora República de Portugal?

D. Nuno combateu o bom combate. Como julgamos que nada se passa por acaso, aguardamos esperançosos os sinais positivos que a graça da santificação augura.

O SANTO CONDESTÁVEL E OS POLÍTICOS CONTEMPORÂNEOS

Selo comemorativo da canonização do santo português
“Aljubarrota, Exº Senhor não é um facto isolado na História de Portugal e pode repetir-se sempre que haja um governo consciente da sua missão e saiba pôr acima dos interesses particulares o interesse nacional e não faça da cobardia uma virtude cívica”

General Gomes da Costa (no discurso ao novo Ministro da Guerra, em 15 de Agosto de 1925)

Como é do conhecimento público o Condestável (general) português D. Nuno Álvares Pereira – Beato Nuno de Santa Maria, desde 1918 – vai ser canonizado no próximo dia 26 de Abril. Tal evento devia dar lugar a comemorações a nível nacional. Apesar da cerimónia que vai ter lugar ser eminentemente religiosa, não faz sentido algum que o júbilo e o cerimonial fiquem restritos ao âmbito dos cidadãos católicos.

Não deixa pois, ser curioso notar que a grande maioria dos políticos e todos os órgãos do Estado, sobre o assunto, aos costumes têm dito nada.

Não há até à data qualquer indício de que o governo, por exemplo, tenha qualquer interesse nesta questão.

É lamentável que assim seja, embora fosse expectável face às sucessivas desilusões com que a classe politica tem brindado a população de há largos anos a esta parte no campo da Segurança, da Justiça e do Bem Estar que são a razão de ser das eleições e daquilo que se lhes paga.

Há três ordens de razões – no nosso entendimento – que explicam aquela actuação, este aparente desprezo pela figura ímpar de Nuno Álvares.

A primeira razão prende-se com o fundo político-doutrinário das forças partidárias com assento na AR.

A figura de D. Nuno arde-lhes nas mãos. Por um lado, não consta que a figura do Condestável fosse adepto de questões fracturantes, não era pacifista militante nem adepto de relativismos morais.

Depois era um líder – que são os que fazem a História – ao contrário do que defende uma determinada historiografia e conceito político que tenta reduzir os acontecimentos a movimentos de massas e lutas de classes; outros não sabem sequer ao que andam, são falhos de doutrina, parecem mantas de retalhos fazem demagogia barata, pescam em águas turvas.

O então Condestável do Reino representa a antítese de tudo isto …

Quanto ao partido no governo tem os seus fundamentos nas tradições jacobinas e anti religiosas da I República a que se juntou, mais tarde, uns laivos de marxismo que se põem ou tiram da gaveta conforme a égide do momento. Têm, por outro lado, um azar especial a fardas, ordem e autoridade.

Como podem apreciar a figura do Santo Condestável, excelsa glória das nossas armas?

Além disso exaltar tão virtuosa criatura – cuja filha,note-se,deu origem à Casa de Bragança - em pleno arranque das comemorações dos 100 anos da República, não lhes parecerá certamente, dar jeito nenhum...

A segunda ordem de razões tem a ver com o facto de que desde meados dos anos 70 do século passado se ter menorizado (to say the least) toda a nossa epopeia ultramarina – a frase “meter uma lança em África vem, até, de D. Nuno - caluniando alguns dos nossos grandes estadistas, militares, marinheiros, missionários, etc.; promovido e dando lugares importantes e palco, a desertores, oficiais do quadro permanente que esqueceram os seus deveres militares,etc; cidadãos que andaram a pôr bombas, assaltar bancos e a sabotar o esforço de guerra da Nação, passaram a pessoas respeitáveis; rapaziada que em sociedades regidas por gente séria e com princípios, seriam apodados de traidores, passaram a ser venerandas e obrigadas, etc.

Ora ir comemorar o grande Nuno Álvares, exemplo de patriotismo, seriedade e valentia, sem mácula, iria provocar um contraste demasiado gritante. Percebe-se mas, obviamente, não se pode aceitar.

Finalmente, a outra razão pela qual não se pretende,aparentemente, a nível do Estado dar honras nacionais a tão extraordinário antepassado, tem a ver com a União Europeia e o projecto federalista em marcha. Para se conseguir o objectivo da federação europeia – resta ainda saber o passo seguinte – é preciso acabar com as Pátrias e qualquer resquício de nacionalismo.

Isto é, é necessário acabar com os Estados-Nação, do qual Portugal representa o figurino mais perfeito. O que interessa é esbater os conflitos e tensões de antanho para tudo amalgamar. O que vale, hoje em dia, não é a História de cada país - que representa o passado –, mas sim a História da Europa – que se deseja venha a haver.

Ora lembrar D. Nuno, não cai nada bem neste desiderato. E a maioria dos políticos – que aliás se dizem muito democratas, mas nunca deixam o povo decidir nada do que é efectivamente importante – sabe isso muito bem.

A caridade cristã concede e encoraja, porém, a que as ovelhas (políticos) tresmalhadas voltem ao redil. Serão bem vindos e não lhes ficará mal se o fizerem de boa mente.

D. Nuno sobreviverá a tudo isto. E se já era uma figura incontornável na História de Portugal, a partir de 26/4 será personagem viva em toda a Cristandade.

*****

“Aqui jaz o famoso Nuno, o Condestável, fundador da Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a sua vida na terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos Santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge. Fundou, construiu e dedicou esta Igreja onde descansa o seu corpo”.
Inscrição que existiria na pedra tumular da sepultura primitiva de D. Nuno Álvares Pereira, na Igreja do Carmo em Lisboa.

Parece-nos evidente que as razões que aduzimos para a atitude dos políticos em ignorarem a distinção feita por Sua Santidade o Papa, a D. Nuno, e que se fundam nas asneiras muito graves cometidas por alturas de 1974/75, no desprezo pelo nosso passado histórico, pela adopção de ideologias contrárias aos interesses nacionais, pelo jacobismo militante e pelos próceres defensores da federalização dos países europeus, dificilmente serão assumidas publicamente pelas personalidades ou forças que as sustentam.

Tal poderia espoletar debates “perigosos” de desfecho incerto e acordar consciências adormecidas por acções de cariz (vulgo lavagem ao cérebro desenfreada), mas falsas na sua essência.

Não, o principal ponto que sustentará a objecção política a comemorações alargadas com empenhamento dos órgãos do Estado irá ser o argumento de que, em Portugal, o Estado é laico e existem perfeitamente definidos e separados os poderes e aquilo que pertence a Deus e o que cabe a César. Ora sendo a canonização de Nuno Álvares um acto eminentemente religioso, a César não compete imiscuir-se nem tomar partido.

Para não dizer que não fazem nada, os representantes do Povo, apelidados de deputados, por proposta de alguns, aprovaram recente e maioritariamente um voto de congratulação pelo sucedido, embora uma mão cheia deles se abstivessem – isto é, tanto lhes faz e dão ao desprezo – e outros tantos até votaram contra – ou seja estão tristes por um compatriota seu (partindo do princípio que se sentem portugueses …) tenha sido distinguido com uma honra, que eles certamente abominam mas que não deixa de ser uma honra.

Era assim como se alguns de nós fossemos votar contra pelo facto de Saramago ter recebido o Nobel, só por não gostarmos da criatura.

De qualquer modo o voto de congratulações não obriga a fazer nada…

É este argumento peco que deve ser desmontado e nem sequer é difícil fazê-lo. Vejamos:

Em primeiro lugar a própria distinção religiosa deve ser motivo de júbilo nacional e não apenas dos católicos, já que é o reconhecimento de uma coisa boa – mesmo para quem não tem Fé – e que tem uma expressão a nível mundial.

Que “diabo”, não estamos a tratar de um condenado por um qualquer tribunal internacional… Se assim for, um dia que houver um judeu ou um muçulmano português que se distinga, numa área qualquer da cultura, do desporto, no campo científico, etc., os católicos não se devem regozijar por isso, ou vão participar numa qualquer homenagem nacional que se lhe queira fazer?

Por outro lado Portugal é um país de grande tradição cristã e católica que nos vem da fundação da nacionalidade. Os portugueses foram um pilar da Cristandade e são grandemente responsáveis pela expansão da palavra do Deus que morreu na cruz em todo o mundo. Hoje em dia a grande maioria do povo português ainda se diz católica e teve de alguma forma formação católica.

Então os órgãos do Estado que representam a Nação politicamente organizada fingem não ter nada a ver com esta realidade? Assumem-se (não quer dizer que o sejam!) tão democráticos e neste caso a maioria não lhes diz nada? Mas isto tem alguma lógica?

Vejamos ainda outro aspecto de primordial importância: a dimensão do personagem. D. Nuno não é um cidadão cuja vida se tivesse confinado ao âmbito religioso, como são por exemplo, os casos da irmã Lúcia ou do bom do Padre Américo.

D. Nuno é uma figura avantajada da História de Portugal, foi um grande comandante militar e um líder natural, cuja acção se repercutiu na política nacional, numa altura gravíssima em que a independência corria sério perigo; consubstanciou um conjunto raro de virtudes morais, cívicas e militares, absolutamente invulgar, numa palavra é um exemplo para todos e que, justamente, a todos devia servir de inspiração.

São raros os países no mundo que se podem orgulhar de terem figuras da sua igualha e nós em Portugal não fazemos nada?

Perdoarão os leitores, mas creio que os portugueses se etilizaram colectivamente numa festa qualquer que ninguém deu conta ainda que acabou e assim ficaram. Então a selecção nacional de futebol que não deixa de ser um grupo de atletas principescamente pagos, que estacionam nos melhores hotéis, fazem estágios com cozinheiros, massagistas, médicos, etc., e restante parafernália ao seu serviço, que nos custa os olhos da cara e que ano após ano só nos dão desgostos são recebidos pelo PR, pelo Chefe de Governo, cumulados de telegramas e atenções têm multidões à espera e são objecto de cobertura mediática capaz de criar urticária nos mais pacatos cidadãos.

E uma figura da estirpe do Santo Condestável, que nos devia ter guiado desde o século XIV e que continua actual, não merece aos portugueses mais do que uma nota exaltante da Conferência Episcopal? (honra lhes seja feita).

Que grave doença moral e até degenerescência física terá atingido o antigo Reino, agora República de Portugal?

D. Nuno combateu o bom combate. Como julgamos que nada se passa por acaso, aguardamos esperançosos os sinais positivos que a graça da santificação augura.

Que o grande Fronteiro Mor do Além-Tejo, Condestável de Portugal, alma pura e bela, agora Santo Nuno, continue a interceder pela terra de Santa Maria. Acreditem que bem precisamos.