terça-feira, 7 de setembro de 2010

O PR E O “ISTO ESTÁ CADA VEZ PIOR”!...

03/01/2010

É a frase que domina a maioria das conversas, mesmo as de circunstância, com excepção do pessoal mais novo, que ainda gosta de falar de outras coisas. A frase com a sua crítica implicita ultrapassou, há muito, as normais banalidades sobre as condições meteorológicas.

A situação não é nova, estamos em crer, até, que é de sempre. Tem a ver com a natureza humana. Já ouvíamos coisas do género no tempo de Salazar, idem para Marcello Caetano, depois no PREC – onde entrámos no surreal – e desde então até hoje e sempre a piorar.

Nem as pessoas que estão junto à área do Poder – as principais responsáveis – escapam à mania: elas também acham que “isto” está cada vez pior! Obviamente temperam a coisa com o aconchego da sua conta bancária e vingam-se do stress, com uma escapadela a uma estância de neve, ou a um paraíso tropical.

Parte-se do princípio – é como um segredo de família! – que quando se referem a “isto”, querem dizer Portugal. Por acaso o seu, nosso, País.

Veio agora S. Exª o PR, na sua mensagem de Ano Novo afirmar, com veemência, que “isto” está à beira de uma explosão social.

Não parece que assim seja (por enquanto…). E não é pelo facto de estarmos na União Europeia (UE) como muitos analistas referem, com o Dr. Mário, diz hoje uma coisa e amanhã outra, Soares, à cabeça. Uma explosão social, um golpe de estado ou qualquer outra manifestação político/social quando tiver que acontecer, acontece quando a situação estiver madura para tal. O Filipe IV, ou o Junot, que o digam.

A mim parece-me que existem quatro razões principais para que ainda não entrássemos em violência: o novo regime não se tem mostrado tão jacobino como é de facto, e não tem hostilizado a Igreja. Começou a quebrar esta regra, pelas minhas contas, há uns três anos a esta parte. A segunda razão prende-se com o facto do país não ter mergulhado numa crise grave internacional, como aconteceu após a proclamação da República, com a I Grande Guerra.

Depois as Forças Armadas ainda não recuperaram do 25 de Abril, de onde saíram muito debilitadas e têm sofrido, desde então, um continuado desgaste e perda de influencia. Finalmente, e mais importante, a CEE, meteu no país desde 1986, cerca de dois milhões de contos/dia, o que tem dado para todos os desatinos. Além disto a gravidade da situação vivida no PREC ainda está viva na mente da maioria da população. O dilúvio de informação, desinformação e condicionalismo psicológico provocado pela explosão mediática, tem feito o resto.

O país tem vivido à “grande e à francesa” com o pequeno pormenor de que gasta o que não é seu e, ou, não produz. Esta irresponsabilidade colectiva vai ser paga com língua de palmo. Mas ainda não chegámos lá.

O que acontece é que quem se habituou a ir de férias a Cancun, pagando a pronto ou a cartão de crédito – outro artefacto que vai prolongando alegremente o desvario – não vai explodir socialmente. Nem se importa – pelos vistos - com quem à sua volta roube, mas faça! Por outro lado, não há ruptura de abastecimentos, pelo contrário, entra-se num supermercado e há 300.000 linhas de artigos à escolha. Para os casos mais desesperados, não têm faltado subsídios.

Ora a questão é esta, por mais que isso custe a admitir às santas almas com as quais nos cruzamos diariamente: a esmagadora maioria das pessoas não quer saber de princípios, interessa-se por conveniências. E a meia dúzia, mesmo que seja alargada, que pugna pelas virtudes, é apenas a excepção que confirma a regra.

Por isso Sr. Dr. Cavaco Silva não haverá ainda explosão social, a não ser casos pontuais devidamente industriados por partido(s) e sindicato(s), para fins políticos. Todos nós sabemos o que isto quer dizer e a quem nos referimos.

De qualquer modo o que é que os cidadãos podem fazer? Escrever artigos? É para o lado para onde os responsáveis dormem melhor! Ir para a rua manifestar-se (quem consegue e quer…)? Os professores, dizem, puseram 200.000 pessoas na rua e isso não resultou em coisa nenhuma! Denunciar escândalos? Saem às dezenas nos “media”, por semana. No passa nada! A justiça está metida numa camisa de forças … As pessoas ainda estão numa de sobreviver e ver se é a do lado que faz alguma coisa.

A situação verdadeiramente preocupante é a do desemprego. Mas tem muitas almofadas: os imigrantes estão a abandonar o país; os portugueses passaram a emigrar em números preocupantes, novamente; existe o subsídio de desemprego; muitos trabalham de ambos os lados da fronteira, etc.

A questão agora é esta: irá a situação ser corrigida ou irá agravar-se? Nisto o PR, foi omisso.

Na minha perspectiva a situação vai piorar. Sobretudo porque o sistema político em que vivemos vai tornar o país ingovernável. O sistema está cheio de erros, mas é incapaz de se reformar. Como se fez uma lavagem ao cerebro das pessoas, afirmando que ele é o melhor e é democrático, não há maneira de o deitar abaixo. Vai ter que implodir. Como, aliás, implodiu o de 1820, o de 1834, o de 1851 e o de 1910. Não se aprende mesmo nada.

Principal causa: a ditadura dos partidos e o péssimo comportamento da maioria dos políticos. Não se conseguindo reformar isto não se conseguirá nada mais. E é mesmo duvidoso que mesmo havendo fortes pressões exteriores para pôr ordem na casa, o sistema permita que algo de útil possa ser feito: vai continuar-se a recorrer a empréstimos externos e a castigar o contribuinte com impostos (caminho ,aliàs, que os vencedores do 28 de Maio também queriam seguir,até que...).

Existem, por cálculo grosseiro, umas 200.000 famílias que gravitam na área do poder e se têm locopletado com a esmagadora maioria da riqueza existente no país. Não parece crível que queiram abdicar dos seus proventos. A bem.

Por isso Sr. Presidente, pode esperar que lá mais para a frente possa haver, não uma, mas várias explosões sociais. Mas só quando uma fatia alargada de portugueses começarem a viver realmente mal e outros tantos estiverem com a corda na garganta. Pequenos grupos começarão,então, a conspirar a sério, deixando de haver apenas os almoços e tertúlias de bota abaixo (que os há por todo o lado) e as conversas de circunstância onde se diz por norma “isto está cada vez pior”. Isto são coisas de treinadores de bancada e não levam a nada.

Depois surgirão “capacidades”, alguns das quais escaparão ao controle das polícias e informadores. Ficará tudo pendente de um rastilho, que surgirá quando menos se espera.

E lá passaremos então, por mais um mau bocado, de consequências imprevisíveis.

Aprende-se mesmo pouco em Portugal.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O ANIVERSÁRIO 207 DO COLÉGIO MILITAR

02/03/2010

“Um por todos e todos por um”
Divisa do Colégio Militar

Desfile dos alunos do Colégio Militar do Marquês de Pombal à Igreja de São Domingos,
que se realiza anualmente. Foto cedida por AAACM
Em 27 e 28 de Fevereiro comemoraram-se as 207 primaveras do segundo estabelecimento de ensino mais antigo do país, que ainda lecciona (o primeiro é a Universidade de Coimbra): o Colégio Militar (CM).

Ou seja, o Colégio é uma verdadeira instituição nacional, que as vicissitudes históricas nunca abalaram; com provas dadas, qualidade de ensino, formação global do ser individual, com muita gente famosa lá formada e tradições sedimentadas.

É uma escola de liderança e patriotismo, de valores e de exigência. Tudo isto gerou um espírito positivo que irmana sobretudo todos os alunos que o frequentaram mas, também, oficiais, professores, funcionários civis e familiares.

Aliás, tal facto ficou bem demonstrado na cerimónia militar nos claustros, quando três funcionários civis com dezenas de anos de casa, foram chamados para receberem uma placa assinalando a sua aposentação e foram festivamente saudados por grupos de ex-alunos presentes.

Os eventos múltiplos e variados (sem equivalência também em nenhum outro estabelecimento de ensino secundário), decorrem de um modo algo alucinante, no fim de semana mais próximo da data da fundação – 3 de Março de 1803. É o ponto alto do ano escolar de um ciclo que se repete sem solução de continuidade.

Destacam-se as cerimónias militares que se distinguem pelo brilho e pelo garbo com que o batalhão colegial se comporta, imperturbável à fúria dos elementos e ao que se passa à sua volta, evoluindo com o cerimonial e manejo de arma mais difícil de todas as Forças Armadas Portuguesas, como se de verdadeiros veteranos se tratassem. Tenho assistido a cerimónias idênticas em algumas unidades, que deveriam pôr os olhos nesta rapaziada…

Bom discurso, o do Director do Colégio, com substância, claro, sem salamaleques, com algumas mensagens e bem dito. Nele houve lugar também para o repúdio firme e com elegância dos ataques, por vezes soezes, surgidos na comunicação social há alguns meses atrás.

Dois pequenos “senão”, todavia. É pena que a cerimónia de guarda de honra à entidade que presidiu à cerimónia militar não se faça no exterior do edifício nos moldes das boas tradições militares. A Instituição Militar não tem que ter vergonha de se mostrar publicamente. O “incómodo” causado ao trânsito é mínimo e mesmo que não fosse, teriam que se sacrificar pois valores mais altos se levantam!

O segundo ponto tem a ver com o facto de haver alguns civis presentes nas cerimónias militares que não se descobriram e, ou, tomaram uma atitude respeitosa quando toca o hino ou passa o estandarte nacional. Vão ter que ser os alunos a ensinar os seus familiares…

E, de facto, entre as muitas vantagens e mais valias que o ensino e educação de tipo integral e completo que se ministra no CM, devemos realçar aquilo que é conhecido como virtudes militares, o que representa uma base espiritual de nomeada.

Como muito bem ensinou o General Ferreira Martins , nelas podemos distinguir a obediência e a disciplina, a subordinação e o respeito, a lealdade e o patriotismo, a fraternidade e dedicação; a solidariedade, camaradagem e espírito de corpo; a coragem, a bravura e intrepidez; a abnegação e a resignação; a generosidade na vitória e a paciência na adversidade; a honra e o valor.

Mas, à frente de todas, destaca o General F.M., a Probidade, descrita como o “asseio da alma”.

São virtudes como estas que aguentam uma família, uma instituição ou uma nação quando tudo parece ruir à nossa volta.E só entre homens e mulheres formados nestes valores, podem sair aqueles capazes de redimir as Pátrias, quando estas caem dolorosamente enfermas.

Ensinar estas coisas representa uma responsabilidade acrescida, dado que os alunos estão numa idade em que a generosidade da juventude é mais impressionável pelos exemplos que lhe são dados contemplar.

Quem puder deve vir, pois, visitar o CM e as suas festividades. Procurem entender o que se passa e porque se passa assim.

Verão que é um estímulo para o corpo, retempero para o espírito e uma bênção para a alma.

sábado, 4 de setembro de 2010

EQUÍVOCOS SOBRE O 1º DE DEZEMBRO E SEU FERIADO

01/01/2010

Monumento nos Restauradores, em Lisboa,
que assinala a Restauração de Portugal,
no 1.º Dezembro de 1640
“Só existem Nações, não existe Humanidade”
Fernando Pessoa, in, Textos Filosóficos e Esotéricos, 1915

Primeiro de Janeiro, começamos bem o ano, na luta de sempre...

Num País (o nosso), em que a asneira virou livre, na justa medida em que não acarreta consequências para os seus autores, assistimos agora à proposta da Associação Empresarial de Portugal (AEP), pela boca do seu vice presidente, Paulo Nunes de Almeida (PNA), defendendo que existem feriados a mais, em Portugal, e que aquele que devia ser sacrificado à cabeça seria o 1º de Dezembro.

Lembra-se que, nesta data, se comemora a libertação do jugo Filipino que representava a coroa dual ibérica, em 1640, vulgo “Restauração” de Portugal. Adjectiva até, a comemoração de “situação caricata” e “contra naturam”.

A gente ouve isto e já não se espanta dadas as barbaridades que, por graça de Deus – e estupidez dos homens – temos sido servidos de assistir neste antigo jardim (pouco) florido.

Comemorações do 1.º de Dezembro nos Restauradores em Lisboa.
Foto de Manuel Pinto, cedida pelo Jornal de Coruche
Já em tempos,que foram os da mudança da decisão da construção do futuro aeroporto de Lisboa (que se espera seja mesmo muito futuro...), da Ota para Alcochete, o Presidente da AEP, sr. Van Zeller, do alto da sua pesporrência, relativamente aos problemas que se levantariam com a perda do Campo de Tiro, sito naquela última localidade, desde 1904, disse com ar desdenhoso: “os militares que vão dar tiros para Marrocos ou para a Andaluzia”!

Ignoramos, até hoje, se o sr. Van Zeller já estabeleceu contactos com os governos espanhol e marroquino para obter a autorização para que tal possa acontecer e se conseguiu que algum eventual amigo seu da banca, se dispusesse a financiar tal empreendimento, em vez de pôr os seus réditos a recato nas ilhas Caimão ou ir especular, com o dinheiro dos outros, nalguma praça financeira de reputação menos duvidosa.

Estes cidadãos que representam milhares de empresários, e que não são propriamente equiparáveis ao “Zé da Esquina”, deviam ter cuidado com o que dizem. Na dúvida, calem-se. Não mostrem a vossa ignorância histórica e geopolitica, públicamente. Eu sei que quem não sabe, raramente dá conta disso. Mas façam um esforço.

Já lhes ocorreu, por ex, que a Economia não é um fim em si mesma: deve derivar de uma política e ser instrumento de uma estratégia; que a economia (e as finanças), devem ter preocupações sociais e de segurança; que devem visar a sustentabilidade e as mais valias futuras e não a resolução de problemas de tesouraria ou o enriquecimento rápido; aprender a serem empresários com “E” e não apenas a comportarem-se como “donos” das empresas; não confundir a “gestão” de pessoas com a “liderança” do tijolo, é ao contrário....

Finalmente um bem para todos não reduzir o mundo ao vosso umbigo tecnocrático, muito menos à vossa recheada carteira (apenas de dinheiro).

Por fim, senhor PNA, se o senhor entendesse alguma coisa da História de Portugal jamais defenderia que fosse o feriado dessa magnifica alvorada do 1º de Dezembro a ser irradiado.

Deixando os feriados religiosos, que têm a ver com o povo católico, mas também com as tradições históricas e culturais de toda a nação portuguesa – entende-se que a AEP não se queira meter com a Igreja – os últimos feriados de cariz nacional a desaparecer só podem ser o 10/06 e o 1/12, justamente porque comemoram e exaltam a nacionalidade portuguesa, o que parece não ter qualquer significado para a AEP.

Porque não foram inteligentes e propuseram o fim do 5/10 ou o 25/04, que são datas de cariz político/revolucionário, não consensuais e que dividem a sociedade portuguesa? Agora o 1º de Dez.?, seus Migueis de Vasconcelos!

Por outro lado existe, no país, um conjunto alargado de associações e instituições, cujos estatutos referem serem patrióticas ou terem fins patróticos. Pois senhores, até hoje nenhuma delas tugiu nem mugiu perante o desaforo da AEP. Devem lá ter o “patriótico”apenas como ornamento.

É este o estado a que estamos reduzidos. São, aliás, os órgãos do Estado os principais responsáveis por todo este descalabro, pois o exemplo vem sempre de cima.

O Estado deixou de comemorar o 1.º de Dezembro sem nunca ter explicado à Nação, tal mudança. Mas vai agora comemorar os 100 anos do 5 de Outubro gastando cerca de 10 milhões de euros e uns trocos, efeméride esta, provocada por um grupo de políticos fanáticos, que utilizavam a bomba como argumento; fundada num crime de regicídio, que instalou um regime nunca referendado pelo povo e cujos actuais próceres pretendem perpetuar através de uma ditadura legislativa.

Mas tal não parece preocupar a AEP. Ela não gosta é do 1.º de Dezembro, se calhar porque desse modo pensa piscar melhor o olho a negócios transfronteiriços...

Ora foram os infelizes – que havemos de lhes chamar? – que representam o Estado Português, mas há muito deixaram de representar a Nação (que vai votando neles, mas não se revê neles), que decidiram ir assinar o malfadado Tratado de Lisboa – que nos vai suprimir o futuro – no pretérito 1.º de Dezembro, junto à Torre de Belém!

Isto não representa uma lamentável coincidência, mas sim uma provocação a toda a História de Portugal e ao que resta dos bons portugueses.

É à luz desta indignidade que a posição da AEP se percebe e faz sentido.

O maior equivoco, porém, é julgar-se que o significado do 1.º de Dezembro está ultrapassado ou pertence a outra História.

Disse Cristo: “Pai, perdoa-lhes que eles não sabem o que fazem”. Estes sabem.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

AS FORÇAS ARMADAS, O ESTADO E A NAÇÃO

5/09/09

Militares do Exército Português, transportam os restos mortais do Tenente Coronel do Exército Português Rui Magiollo Gouveia, trasladado para Portugal e sepultado em Mação,
no passado dia 18 de Agosto de 2003 com Honras Militares.
Magiollo Gouveia foi assassinado de forma cobarde e vil às mãos da Fretilin em Timor há 35 anos.
Num recente filme de acção que visionámos, o argumento girava à volta de um sequestro de uma carruagem de metro com os respectivos passageiros. Numa das cenas uma jovem mãe que estava acompanhada do seu filho de uns 9/10 anos, em desespero de causa, pediu a um negro de meia-idade que ostentava um anel com uma águia e a palavra Airborne (símbolo dos paraquedistas americanos herdeiros das tradições das muito reputadas 82ª e 101ª divisões de infantaria aero transportadas), que pensasse num plano qualquer que os livrasse daquela situação em que corriam perigo de vida.

O nosso homem perguntou à senhora se estava a dirigir-se a ele por ser preto e com ar de duro, ao que ela retorquiu, que o seu marido também tinha um anel igual. Mais à frente o ex-paraquedista salvou a vida ao rapazinho, interpondo-se entre ele e a arma do chefe dos sequestradores, sendo abatido por este.

Antes, ainda se o ouviu dizer à mulher ser aquele o único plano que lhe ocorrera. Apesar dos “traumas” do Vietname e de outras guerras menos felizes, da indústria cinematográfica de Hollywood não ser propriamente conservadora e das facções “liberais”estadounidenses não serem conhecidas por fãs das Forças Armadas, isso não belisca a consideração que é devida aos militares, num país onde o presidente das Associações de Veteranos despacha directamente com o Presidente dos EUA.

Há poucos meses circulou na net um pequeno vídeo mostrando o modo como as urnas dos soldados canadianos mortos no Afeganistão eram recebidas e saudadas pela população. Um exemplo de civismo e patriotismo, sem pieguices nem alardes despropositados.

Não é assim em Portugal, por razões que só a nossa pequenez intelectual e masoquismo endémico podem explicar.

No nosso país, apesar de nos últimos 25 anos já termos enviado cerca de 30.000 homens cumprirem missões em mais de 30 países nos quatro cantos do mundo, dispondo de umas FAs que não têm deixado de ser diminuídas em todos os sentidos, raramente se fala, se mostra ou se escreve, sobre as suas actividades. Têm-se portado bem.

E quando um militar morre, tal tem servido para ataques de baixo jaez entre políticos e ou de manifestações piedosas e desajustadas de órgãos de soberania. Está tudo fora da justa medida!...

Lembramo-nos do filme “Chaimite”, que exaltava toda uma gesta de africanistas e um outro filme creio que o “Pai Tirano”, em que numa curta cena se assiste a este diálogo: Fidalga, para um homem do povo, “Para trás…”, - “para trás não, para a frente, que eu fui de Infantaria”.

Mas tudo isto pertencia a outra época. Agora não há estatuária (a não ser aquela promovida por “homens bons dos concelhos” em quererem homenagear localmente, os seus conterrâneos que lutaram nas últimas campanhas ultramarinas, nem outras artes plásticas, grande parte da literatura, teatro, etc em que de alguma forma se eleve a figura do combatente.

E que dizer da filmografia onde há a realçar o “Non ou a vã glória de mandar”, do laureado Manuel de Oliveira, em que retrata apenas derrotas militares portuguesas e a “Guerra na Guiné”, de Andringa e Flora, o maior (e melhor) documentário de propaganda do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e contra Portugal. Esta desintonia é difícil de explicar mas é necessário dilucidar.

É certo que houve militares portugueses que não se portaram segundo os ditames da virtude e da honra, e isto em todas as épocas. Devem ou deviam ter sido julgados e punidos. E muitos o foram. Agora está longe de serem uma franja sequer razoável das Forças Armadas, cujo activo ultrapassa em muito o passivo, que são uma trave mestra da nação, cuja história se confunde com a da nacionalidade e sem as quais Portugal soçobrará. E, em qualquer caso, é imprescindível salvaguardar a Instituição.

Há qualquer coisa de muito errado nisto tudo.

ACORDEM PORTUGUESES!

23/12/2007

Alto do Parque Eduardo VII, Lisboa, em Dezembro de 2007
A última vez que houve um motim em Lisboa por se ter hasteado uma bandeira estrangeira, foi no dia 13/12/1807. O seu causador foi o general Junot que mandou hastear a bandeira napoleónica no castelo de S. Jorge, aquando da 1.ª invasão francesa. Fez agora 200 anos...

E isto apesar do Principe Regente ter (infelizmente), deixado instruções para que os Franceses não fossem molestados. A coisa deu mortos. Só podia dar.

Eis senão quando recentemente (19/12/07), ao olharmos para o alto do Parque Eduardo VII, onde nos habituámos a ver drapear uma enorme Bandeira Nacional, paredes meias com um falo, supostamente evocador dos cravos de Abril – e nada consentâneo, aliás, com a imponência daquela – verificámos, atónitos, que o Augusto simbolo das Quinas, que nos acompanha desde que Afonso Henriques individualizou o Condado, tinha sido substituido por um trapo azul, marchetado de estrelas com ictricia.

Que desfaçatez é esta?

Que falta de senso é este?

Que traição é esta?

Quem autorizou -------------------- (deixa-se em branco para cada um adjectivar), este acto de lesa soberania?

Será que o governo se prepara para substituir todas as bandeiras portuguesas por um simbolo de uma entidade internacionalista sem estatuto político definido?

Será que nos querem impôr ditatorialmente realidades que não explicam e se recusam a discutir na praça pública? Será que julgam que somos todos burros e sem carácter?

O que é que isto significa?

Será um teste?

Será uma provocação?

Será uma ignorância atrevida?

Como se poderá explicar esta aleivosia de lesa Pátria?

Portugueses acordem!

Como cidadão português com os seus direitos e deveres em dia, exijo que o simbolo em forma de bandeira, da União Europeia, seja arriado de imediato e substituido pela Bandeira de Portugal. Exijo ainda que se apurem responsabilidades.

Ficaria bem um pedido de desculpas, mas por mim dispenso-o: não releva nada a quem não tem vergonha na cara.

A VERGONHA POLÍTICO-MILITAR, A CAMINHO DA CONCRETIZAÇÃO?

“A nossa consciência é um juiz infalível enquanto não a assassinamos”
Balzac

Entendemos que quaisquer acções de carácter humanitário ficam bem a quem as pratica. E a nível do Estado e da “sociedade civil”, também existem entidades que se dedicam a essas actividades e a minorar as agruras daqueles que não foram bafejados pela sorte, ou não a souberam construir na sua passagem pela terra. E para isso todos pagamos impostos e alguns ofertam donativos.

Mas, simultaneamente, somos defensores de dar a cada um segundo os seus merecimentos, pelo assumir das responsabilidades pelos actos praticados e por castigar nos termos da lei e da moral pública, aqueles que incorreram naquelas. E não se deve confundir umas com as outras.

Muito menos é admissível que à pala de falsos humanitarismos ou por afinidades ideológicas ou interesses de grupo, se dê cobertura a vigarices descaradas: mete nojo.

Há cerca de 15 dias publicámos artigo em que denunciávamos um caso destes. Trata-se da eventual reintegração do ex-capitão Artur Ribeiro Gomes que desertou em 1972 (foi de férias à Venezuela e ficou por lá), em circunstâncias que um tribunal devia ter julgado e pronunciado sentença. E esta começa por ser a primeira pergunta que se deixa: qual é a situação jurídica deste cidadão, dado que o crime de deserção nunca prescreve ? Será que foi amnistiado,numa das muitas amnistias que se sucederam?

Até agora a atitude da FA, o MDN e o SEDNAM baseados em muitos pareceres já emitidos, foi o de rejeitar tal desiderato. O que a terá levado o MDN a perguntar, recentemente, à FA quando custava reitegrar este ex-oficial que desonrou as FAs,e se tinha mais alguém em situação idêntica?

È certo que este assunto anda a ser “empurrado” por dois generais da FA, na reforma, mas o que terá precipitado a questão foi “alguém” na àrea politica ter ficado com os joelhos a tremer por alegada ameaça do nosso homem em se suicidar e tal terá desencadeado a ideia de o aumentar novamente ao quadro permanente dos pilotos aviadores...

Aqui levanta-se um problema: como o fazer?

Está na baila a Lei 43/99,de 11 de Junho, que foi há pouco “reactivada”, mas tal não é possivel dado que a aplicação desta Lei (que tem suscitado polémica por suspeita de aproveitamentos iniquos), só se aplica aos “militares que participaram na transição para a democracia iniciada em 25 de Abril de 1974”.

Ora o caso em questão ocorreu em 1972… Existe porém uma proposta da DGPRM (a quantidade de organismos que perdem tempo com casos destes!), de o fazer reitegrar através de uma outra Lei feita em Maio ou Junho de 1974, e já posta a funcionar por mais duas vezes, e que se destinava a reintegrar a oficiais “saneados” antes daquela data.

Bom e se não for através desta, também não parece um problema insuperável: afinal a redacção de uma lei sai da ponta da caneta do legislador…

Há, todavia, mais perguntas que se podem (e devem) fazer: por exemplo a alegação de “antifascismo” pelo dito cujo, perfeitamente destituída de verosimilhança, como pode ser facilmente explicitado por quem conhece o caso, não será uma afronta aos que – com razão ou sem ela -, combateram o anterior regime e sofreram por isso?

Quais foram os termos em que o cidadão Ribeiro Gomes solicitou a sua reintegração na FA?; e estando ausente do país nas circunstâncias em que esteve, como obteve passaporte para entrar em Portugal?

Como se irá explicar aos actuais cadetes das Academias Militares a reintegração de um desertor, sem haver a mínima razoabilidade? E os seus camaradas da altura, vão ser destituídos do seu posto porque não lhe seguiram as pisadas? É que as duas situações em simultâneo não parecem compatíveis...

Que moral é que poderá existir para se levar a tribunal e eventualmente punir um militar que hoje em dia deserte da sua unidade em Vila Real ou… no Kosovo?

Quando terminará (finalmente!) o PREC? .

E desde quando é que saber-se da existência de eventuais ilegalidades, imoralidades, iniquidades etc, pode ser justificação para se cometerem outras mais?

A dor física existe no corpo humano, em primeiro lugar, como medida de aviso para que cada um se possa defender. Senão ninguém sobrevivia ao 1.º mês de vida.

Do mesmo modo, na sociedade, deve haver o sentido de justiça e o de vergonha, sob pena de nos dissolvermos no pior dos infernos. E quando o exemplo não vem de cima, tem que ser cada um dos cidadãos a quem ainda resta uma centelha de pondunor a exigi-lo.

E o tempo já mostrou à saciedade que o princípio leninista de que “os fins justificam os meios”, não é propriamente uma boa orientação para a Humanidade. O mesmo se podendo dizer, daquele episódio histórico-bíblico onde um certo senhor Pilatos lavou as mãos em público…

APRESENTAÇÃO DO LIVRO “EM NOME DA PÁTRIA”

28/10/2009

Gostaria de começar por vos mostrar uma missiva que o Duque de Wellington enviou ao governo de S. Majestade:
Mensagem do Duque de Wellington para o Ministério dos Negócios Estrangeiros em Londres, Agosto de 1812:
Exmºs Senhores:

Enquanto marchámos de Portugal para uma posição que domina a aproximação de Madrid e das forças francesas, os meus oficiais têm cumprido diligentemente os vossos pedidos, enviados no navio de sua majestade, de Londres para Lisboa e daí, por estafeta a cavalo ao nosso quartel general.

Enumerámos as nossas selas, rédeas, tendas e respectivas estacas e todos os “items” pelos quais o governo de sua majestade me considera responsável. Enviei relatórios sobre o carácter, capacidade e índole de todos os oficiais.

Foram prestadas contas de todos os “items” e todos os tostões, com duas lamentáveis excepções, para as quais peço a vossa indulgência.

Infelizmente não nos é possível responder pela soma de 1 xelim e 9 dinheiros, do fundo para pagamento de pequenas despesas dum batalhão de infantaria e houve uma lamentável confusão quanto ao número de frascos de compota de framboesa entregues a um regimento de cavalaria, durante uma tempestade de areia no oeste de Espanha.

Este descuido censurável, pode ser relacionado com a pressão das circunstâncias, uma vez que estamos em guerra com a França, facto que poderá parecer-vos, senhores, em Whitehall, um pouco surpreendente.

Isto traz-me ao meu objectivo actual, que consiste em pedir ao governo de sua majestade, instruções sobre a minha missão, de modo a que eu possa compreender melhor a razão porque estou a arrastar um exército por estas planícies estéreis. Suponho que, necessariamente, deve ser uma de duas missões alternativas, como abaixo indico. Prosseguirei qualquer delas, com o melhor da minha capacidade, mas não posso executar as duas:

1. Treinar um exército de escriturários britânicos fardados para benefício dos contabilistas e moços de recados em Londres, ou, talvez;

2. Providenciar no sentido das forças de Napoleão serem expulsas de Espanha.

Assinado

O Vosso Mais Obediente Servo

Wellington

Wellington, que foi um grande general, sabia do que falava. E o fundo da questão da sua missiva também se veio a verificar entre nós, relativamente ao período que analisamos, sobretudo depois de Marcello Caetano ter assumido a Presidência do Conselho de Ministros. Mas já lá iremos.

*****
Exmº Sr. Cmd da AM, Gen. Paiva Monteiro e meu prezado camarada;

Ilustres membros da mesa

Exmº Sr. Prof. Dr. Adriano Moreira; Exmª Srª Drª Maria João Costa, Editora da D. Quixote; Senhores Oficiais Generais; Minhas senhoras e meus senhores; Camaradas e amigos.

Não foi fácil aqui chegar!...

Mas ao fim e ao cabo, lá acabei por cortar o cabelo, lavei os dentes, engraxei os sapatos, aspergi-me com uma colónia, vesti um fatito engomado e assim “uniformizado e ataviado” aqui estou, a apresentar-me, pronto para revista.

Venho armado apenas do meu livro, o que para hoje, deve chegar.

Fez agora 38 anos que entrei para esta casa, como cadete aluno. Decidi concorrer à AM, quando acabei o 5º ano do liceu. Sabia o que queria e preparei-me para ao que vinha.

Assumi relativamente ao Ultramar as palavras de Schomberg – sem as conhecer ainda – justificando aceitar vir comandar o Exército Português, durante a Restauração: (Portugal) “Uma causa nobre pela qual decidiu combater”.

Não podia imaginar que passado este tempo todo estaria aqui a apresentar este livro. Mas certamente gostaria de poder estar a apresentar um outro: um livro que falasse de vitória em vez deste que fala de derrota. Mas, enfim, falar de derrota, ou derrotas, também tem o seu lado positivo, se isso puder contribuir para o melhor apuramento da verdade histórica, o correcto entendimento das reais intenções dos principais protagonistas nos eventos sob análise e, sobretudo, nas ilações que possam ser retiradas e possam potenciar acertos ou prevenir idênticos erros no futuro. Estes são os principais objectivos deste livro. E isto é tão mais importante, quando as especificidades do ser português nos torna relapsos a analisar os eventos da nossa História que são dolorosos e, ou, conflituais.

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Devo especiais agradecimentos – que mesmo que não fossem “praxe” social e académica, eu não me iria eximir:

Em primeiro lugar à Editora D. Quixote - entretanto englobada na empresa Leya – nas pessoas das Drª Sara Gomes – que me contratou e acompanhou na fase inicial da feitura da obra; e da Drª Maria João Costa, que pegou no projecto já em fase de revisão e o levou à tipografia. O gosto pelo produto acabado é ainda maior pelas agruras e problemas que foi necessário ultrapassar.

Agradeço a um rol extenso de camaradas e amigos pela sua crítica, disponibilidade para fornecerem informações ou dados e ainda revisão de texto. Agradeço às personalidades que acederam em serem entrevistados e cujas respostas constam, em anexo, do livro; agradeço ao Prof. Adriano Moreira que apesar das suas múltiplas tarefas – que jovens de 30 anos são incapazes de levar a cabo - arranjou tempo e interesse para escrever o prefácio e ainda para estar presente na apresentação oficial do livro.

Agradeço aos Comandante do Exército e da AM a autorização e disponibilidade para que a apresentação se fizesse neste Palácio que começou por ser construído para uma Rainha e acabou Escola do Exército no seguimento da fundação desta, em 1837.

Finalmente tenho a agradecer a presença de todos vós nesta sala, sem a qual o lançamento do livro perderia toda a sua substância.

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Culmino hoje um projecto e uma ambição de longa data.

Decidi apresentar este livro na Academia Militar por duas razões principais: a primeira sendo, ter sido nesta casa que aprendi a ser militar e me formei universitário; depois pelo tema do livro que versa as últimas campanhas militares ultramarinas levadas a cabo pelas FAs portuguesas.

Sem embargo, pelo que vi ocorrer posteriormente, me interrogue se muitos dos meus camaradas que por aqui passaram terão estudado pelos mesmos livros que eu…

Tenho sido muito criticado ao longo da vida por escrever sobre estas campanhas africanas e asiáticas sem lá ter estado a combater. Não levo a mal a quem faz as críticas. Trata-se certamente de um lapso cognitivo por não lhes ter ocorrido lançar semelhante labéu sobre quem se atreva hoje a falar sobre o D. Afonso Henriques …

Ter participado num conflito, não abona ninguém, à partida, para o analisar globalmente. Dá-lhe apenas credenciais para testemunhar a sua vivência particular marcada pela circunstância do lugar e do tempo. E resta esperar que esta experiência não lhe crie preconceitos ou enviese a análise de tudo o resto. Enfim, lidamos com a natureza humana com as suas qualidades e limitações. E eu não me julgo fora deste quadro.

O livro versa fundamentalmente quatro temas, que têm andado arredios de tudo o que se tem publicado sobre o tema ou é referido em colóquios e conferências. São eles:
- A Justiça da Guerra
- O Direito em fazer a guerra
- Se a guerra era sustentável e
- Porque desistimos de lutar.

Estes temas são tratados objectivamente nos últimos quatro capítulos do livro, servindo os restantes seis capítulos para enquadrar política e geo-estrategicamente; fornecer dados e tratar conceitos, que permitam entender as deduções e conclusões finais.

E não quero fugir a dizer-vos que defendo a inteira justiça da luta portuguesa de então; o direito que tínhamos em fazer a guerra; que esta era sustentável e as razões porque acabámos por desistir da luta, que reduzi a oito mitos que foram sendo paulatinamente criados – direi melhor, subversivamente inoculados – e se foram instalando na mente de muitos.

Os oito mitos foram os seguintes:
- a guerra era insustentável e impedia o desenvolvimento do país;
- Portugal estava “orgulhosamente só” no mundo e posicionava-se contra os “ventos da História”;
- a guerra durava há muito tempo;
- Portugal ia perder a guerra militarmente;
- Portugal andava em contra ciclo com os “ventos da História” e devia ter descolonizado mais cedo;
- a população dos territórios ultramarinos queria ser independente;
- a guerra era injusta e actuávamos à revelia do Direito Internacional;
- a solução para a guerra era política e não militar.

Estes foram os principais mitos que corroeram a sociedade portuguesa, sobretudo a metropolitana. Ora estes mitos, não correspondendo à realidade, passaram a ser percepcionados como sendo essa mesma realidade, o que passou a condicionar psicologicamente franjas importantes da população e até membros dos órgãos de soberania.

Isto para já não falar do então Presidente do Conselho de Ministros que era contra a política de integração e passou a actuar contra aquilo que tinha jurado defender.

Ora, como passou a ser ciência, em política o que parece é…

Estes mitos viraram verdades oficiais, que muitos poucos ousaram contestar.

Este livro contesta-as e defende que a guerra era justa e de direito (para os portugueses), era sustentável, não impedia o desenvolvimento, não estava perdida militarmente, não estávamos orgulhosamente sós, a maioria da população estava longe de ser anti portuguesa, e que a evolução a fazer-se deveria ser dentro de um quadro de responsabilidade nacional, e a solução política da guerra passava pela desistência em lutar por parte do inimigo. E coloca uma questão: se assim é, e se todos os mitos postos a correr como verdadeiros, eram falsos, onde e como se pode alegar razoabilidade e bom senso para baixar os braços e desistir de lutar abandonando de qualquer maneira, património, gentes, fidelidades, compromissos, vergonha, honra … tudo?

Ninguém ignora que tudo o atrás enunciado não faz fé nos principais próceres e teorizadores politicos de todas as forças partidárias representadas na Assembleia da República; nos comentadores e afins e, outrosim, nos livros que servem de cartilha oficial às futuras gerações: isto é, aos nossos filhos e netos.

O risco de ser acusado de estar em contra ciclo com a História é elevado e a hipótese do livro ser silenciado é ainda maior. Trata-se de prática antiga, pois é mais fácil e eficaz, desvalorizar do que debater ideias. Aliás o que não passa na TV, não existe…

Tomo o risco de boa mente pois pensei o que escrevi e escrevi o que pensei. A última palavra, porém, caberá aos leitores.

Conclusão
Portugal, através de alguns dos seus filhos, pôs fim em 1974/75, de uma forma ignominiosa – que as 50 gerações anteriores e as futuras não mereciam – a seis séculos de um conceito político/estratégico que prosseguimos com determinação, coesão e fé. E não mereciam porque os 20 anos que duraram as últimas campanhas ultramarinas portuguesas, mostraram Portugal no seu melhor. A população e os combatentes – apelidados carinhosamente como os “melhores de todos nós” – aguentaram a maior campanha desenvolvida e orquestrada a nível mundial contra a nação dos portugueses, em toda a sua existência, lutaram global e vitoriosamente contra toda a sorte de ataques ao passo que militarmente se fazia frente, com sucesso – é bom repeti-lo – a uma luta de guerrilha apoiada do exterior, em três teatros de operações distanciados milhares de quilómetros entre si e da base logística principal, que era a Metrópole. Só não se conseguiu parar a força bruta da União Indiana que, à revelia de todos os preceitos do direito internacional e da decência entre os povos, nos invadiu os territórios de Goa, Damão e Diu. Mas é bom recordar que a acção portuguesa conseguiu manter em respeito e resistir às malfeitorias indianas durante cerca de 10 anos. Não foi coisa de somenos!

Tudo isto fizemos sem generais ou almirantes importados, o que já não sucedia desde Alcácer Quibir, sem alteração da ordem pública, ou disrupção das actividades económicas ou sociais. Mais, durante esse período conseguimos essa coisa espantosa que foi obter um crescimento económico/financeiro e social na Metrópole como em nenhuma época passada, em simultâneo com o desenvolvimento das parcelas africanas que ultrapassou tudo o que foi feito nos quatro séculos anteriores. Não houve, contemporaneamente, a nível mundial exemplo de algum país que se pudesse igualar a tudo isto. E nós em vez de estarmos orgulhosos do que fizemos, apoucamo-nos e diminuímo-nos. Há qualquer coisa de errado em tudo isto...

E é bom não esquecer que toda a acção portuguesa servia um projecto que constituía e constitui, certamente, um dos mais altos desígnios da Humanidade: a integração harmoniosa de diferentes raças, credos, religiões, culturas, camadas sociais, etc. Seria, à outrance, uma descolonização revolucionária, por perfeita.

Em qualquer dos casos a anos luz do chamado “multiculturalismo” que almas pouco pias, nos querem impingir na União Europeia!

As acusações que meio mundo fazia à acção dos portugueses – no que foram corroboradas por compatriotas nossos, menos dignos do seu nascimento – de todos os “ismos” possíveis e imaginários, são a esta luz, perfeitamente descabidos e seriam ridículos e risíveis senão tivessem originado um rol de tragédias sangrentas e a nós – os que sobrámos – nos tenha comprometido o futuro.

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A conquista de Ceuta, em 1415, é tida como o começo da expansão ultramarina, mas se analisarmos bem o conceito veremos que ele remonta a 1139, e ao que ficou conhecido pelo milagre de Ourique.

Aconselho-vos a ler o texto supostamente ditado por Afonso Henriques na Igreja de Santa Cruz, na sequência da batalha.

O que sucedeu em 1974/75, porém, não tem paralelo na História Pátria. De facto os portugueses ao longo da sua História, lutaram em quase todos os continentes e mares da terra na defesa dos seus objectivos e princípios em que acreditavam.

Este combate processou-se contra inúmeros estados, populações gentílicas e interesses instalados e implicou sempre muitos e dolorosos sacrifícios. Em muitas ocasiões a força dos inimigos e, ou, a incúria e debilidades nacionais, fizeram com que os portugueses sofressem derrotas e por isso, tivessem perdido territórios e populações. Mas tudo se fazia vendendo cara a pele, sofrendo toda a Nação com as ocorrências malignas que se foram dando. Por outro lado, algumas vezes, alienou-se território por razões de carácter estratégico e ou financeiro como é o exemplo de algumas praças do Norte de África nos reinados de D. João III e D. José I. Ou, ainda, por razões políticas de grande interesse nacional, como é o caso da inclusão de Tanger e Bombaim no dote de D. Catarina, futura Rainha de Inglaterra.

No mais, lutava-se sempre em termos económicos, diplomáticos, psicológicos e militares.

O que nunca tinha acontecido na História de Portugal foi, a meio de um conflito de baixa intensidade que ainda por cima controlávamos e de que estávamos a sair vitoriosos, ter-se desistido de lutar, entregando de forma leviana todo o património, interesses e ideais, pelas quais tantas gerações de portugueses se tinha batido durante tantos anos.

E tudo se passando num clima geral de aparente euforia e contentamento!

A desorientação foi, e é, tanta que numa atitude nunca vista assumimos oficialmente a esmagadora maioria dos argumentos dos nossos inimigos…

Não parece ser saudável continuar nesta senda.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Da estratégica sabemos de ciência certa o que o senso comum sempre nos indicou:
- pelo que é fundamental, morre-se;
- pelo que é importante, combate-se;
- pelo que é secundário, negocia-se.

Porque o conceito de Portugal do Minho a Timor nos era fundamental e estava incrustado no mais profundo da nacionalidade, que as vicissitudes dos últimos seis séculos não abalara, nós combatemos com sacrifício de vidas e fazenda. E tal nunca teve a ver com regimes ou grupos políticos.

E a Estratégia também nos ensina que aquilo que decidimos fazer tem que passar as três provas fundamentais:

- a adequabilidade, isto é, se tem virtualidades para atingir o objectivo pretendido;
- a exequibilidade, isto é, se existem meios disponíveis capazes de lançar e manter a estratégia delineada e;
- a aceitabilidade, ou seja, se os custos que essa estratégia implica são aceitáveis face à importância do objectivo definido.

Se a estratégia não passa em alguma destas provas é necessário rever todo o processo de tomada da decisão, a começar pelo objectivo que pode ser demasiado ambicioso.

De facto, o nosso objectivo era ambicioso e não só ambicioso, como grandioso – quero lembrar que os portugueses só convivem bem com objectivos destes! – mas não me parece que não fosse adequado, exequível e aceitável. E também não creio que houvesse alternativa viável que fosse melhor. Posso estar enganado, mas ainda não li ou ouvi nada que me convencesse disso. E como em política nada se pode experimentar em laboratório, há-de ficar para sempre a dúvida. Aliás o laboratório da política é a História. E esta deixa muito a desejar em termos de escrita e de estudo.

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As coisas vão evoluindo, embora devagarinho.

Agora e, por exemplo, surgiu uma nova filosofia sobre a justiça da guerra, nas fileiras daqueles que se bandearam com quem nos emboscava as tropas e queria substituir na soberania:

A justiça da guerra estava do lado de todos,dizem. Cada um tinha as suas razões e todas eram respeitáveis. Conceito abrangente e extraordinário este, que não deve encontrar apoiantes em nenhum dos contendores de guerras passadas ao passo que seria esplendoroso como futuro, caso encontrasse acordo entre antagonistas que se viessem a declarar. Resultaria na paz eterna entre os povos da Terra!

Uma pergunta apenas: até onde descerão na argumentação que visa objectivamente branquear acções que se prendem com a traição à terra que lhe deu o braço, ou do juramento à bandeira?

Pode ser certo que a guerra é uma luta entre dois direitos, em que um se imporá no fim, ao outro. Mas isso não nos obriga a deixar de acreditar no nosso e muito menos a ficar contentes com o desfecho.

Que acabámos por soçobrar é um facto. Agora que tenhamos que assumir as razões dos nossos inimigos, ou ser forçados a engolir mentiras no discurso oficial ou nos livros de História é que já me parece intolerável. Recuso-me mesmo a aceitar tal estado de coisas. E este é, de facto, um dos problemas que tenho tido: é que ao contrário de muitos com quem me cruzei na vida, eu nunca me conformei com esta derrota ignominiosa.

Por uma vez nós temos que acertar contas com a História, já que não se pode aparentemente fazer mais nada.

Nós temos que decidir o que ensinar às futuras gerações (Instituição Militar incluída).Por ex., quem é que nós vamos escolher para herói,ou figura de referência:

- Oliveira e Carmo ou Rosa Coutinho?
- Aniceto do Rosário ou Vassalo e Silva?
- Diogo Neto ou Jacinto Veloso?
- Bettencourt Rodrigues ou Vasco Gonçalves ?

O que vamos comemorar:
A resistência heroica de Mucaba, ou o abandono de Guilege?
O assalto a Conakri ou a rendição de Omar?
O afundamento com honra do Afonso de Albuquerque ou o fuzilamento dos comandos guineenses?

Finalmente temos que decidir quem queremos para exemplo - e isso é importante nos tempos que correm – o D. Antão de Almada ou o Cristóvam de Moura?.

Nós temos que saber responder a estas e outras perguntas, tanto individual como institucionalmente. Não podemos fugir constantemente às evidências. E se é certo que nem tudo é branco e preto, não é menos certo que ambas as hipóteses não podem estar certas ou erradas ao mesmo tempo …

FECHO
O meu livro que tem também 10 capítulos e 10 estrofes camoneanas, uma por capítulo, representa – passe o exagero – uma espécie de “requiem” pelos Lusíadas. Mas pretende ser algo mais, já que se se limitasse a ser um “requiem” isso significaria o fim da Pátria portuguesa. Deste modo o livro quer apontar a necessidade de se dar início à escrita de uns novos Lusíadas, já que aqueles que conhecíamos morreram em 25 de Abril de 1974.

Mas só se pode escrevê-los a partir da verdade e não da mentira, escorada em chão firme e não em areia movediça.

E é tempo de enxugar as lágrimas que tivemos que chorar pelos nossos mortos, pois,de facto, os vivos não os souberam merecer; arrumar a casa, pugnar pelo Bem, arranjar uma liderança que perceba alguma coisa do que é Portugal e ressuscitar a alma no corpo que nos resta.

Viva Portugal!

Muito obrigado.